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Madeira é hoje uma região “muito mais vulnerável”
Sociedade 08 set, 2016, 13:57

Madeira é hoje uma região “muito mais vulnerável”

Investigador madeirense reflete sobre catástrofes que ocorrem no espaço de 6 anos

O investigador madeirense João Baptista considera que a Madeira é atualmente uma região "muito mais vulnerável", tendo em conta os "cinco eventos catastróficos" (uma enxurrada e quatro incêndios) que ocorreram nos últimos seis anos.

"Nós, neste momento, temos uma região, seja no concelho do Funchal ou em toda a ilha da Madeira, muito mais vulnerável aos agentes de geodinâmica externa, porque tivemos a ação da água e agora temos a ação do fogo, do calor", explicou à agência Lusa o engenheiro-geólogo do Centro Geobiotec, da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Universidade de Aveiro.

Os incêndios que assolaram a região no princípio de agosto (o mais recente dos "eventos catastróficos") deixaram muitas encostas e escarpas sobranceiras às estradas e aos cursos de água sem coberto vegetal, situação que se torna particularmente perigosa com a aproximação do inverno.

"Destruíram parte da vegetação, seja endémica ou não, seja infestante, mas essa vegetação tinha uma ação de proteção, de contenção de todos os materiais que podem ser movimentados, sejam materiais pedregosos, sejam solos", explicou João Baptista, referindo, como exemplo, o vale de Santa Luzia, por onde corre uma das três grandes ribeiras que atravessam a capital madeirense.

O investigador advertiu que as formações geológicas neste vale, particularmente junto à cabeceira, estão "altamente vulneráveis" e, na presença de água e ou de vento forte, podem ocorrer "movimentos de massa repentinos", com carregamentos de materiais diretamente para o curso de água.

"Basta haver uma maior pluviosidade que a ribeira tem tendência em galgar as suas margens, provocando grandes desvios em zonas que atualmente são ocupadas por infraestruturas ou por antigos aterros", alertou, acentuando que o perigo só existe se houver por perto seres vivos, nomeadamente o homem.

João Baptista realçou que as cinco catástrofes dos últimos seis anos deixaram "cicatrizes muito profundas nas formações geológicas", o que se traduziu na ocorrência de "fenómenos acelerados", que em condições normais a natureza levaria milhares ou milhões de anos a realizar.

"Tornaram muito mais vulneráveis todas as encostas", disse, vincando que, agora, é necessário levar a cabo um "trabalho titânico" para minimizar os potenciais efeitos nefastos.

O investigador observou que este processo deve envolver toda a comunidade e passa necessariamente por um "regresso à terra", no sentido de recuperar os terrenos agrícolas que atualmente se encontram abandonados e cobertos de mato.

"Tem de ser um trabalho altamente mobilizador e integrador, envolvendo vários agentes", comentou, sublinhando a necessidade de desenvolver ações para que as pessoas tenham uma "atitude proactiva" e pensando sempre numa escala temporal no mínimo de dez anos.

C/Lusa

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