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Imagem de Escritora Otessa Moshfegh espera que o festival da Madeira a inspire a aprender português
Cultura 15 mar, 2018, 11:28

Escritora Otessa Moshfegh espera que o festival da Madeira a inspire a aprender português

A escritora norte-americana Ottessa Moshfegh, finalista do Prémio Man Booker 2016, participa este ano no Festival Literário da Madeira e confessa que o que mais deseja é sair deste encontro com vontade de aprender a ler e falar português.

Vencedora do PEN/Hemingway e candidata ao Man Booker 2016 com o seu segundo romance, “O meu nome era Eileen”, editado em Portugal no ano passado pela Alfaguara, Otessa Moshfegh é uma das convidadas da 8.ª edição do Festival Literário da Madeira (FLM), que decorre de 13 a 17 de março, no Funchal.

Em entrevista à agência Lusa, a escritora de ascendência croata e iraniana confessou não conhecer ainda nenhum escritor português e manifestou-se “ansiosa por conhecer alguns”. No entanto, o que mais espera deste festival é que a faça “desejar falar e ler português”.

“Talvez me inspire a aprender”, acrescentou a escritora, que participará de uma conversa, com Clara Ferreira Alves e José Gardeazabal, no próximo sábado, em torno de uma frase do escritor norte-americano Philip Roth: "Compreender as pessoas não tem nada a ver com a vida. O não as compreender é que é a vida”.

Esta afirmação significa, para Ottessa Moshfegh, que “não há uma verdadeira compreensão das pessoas, talvez de nada” e que “a vida é a experiência de não entender nada”.

A frase remete para Eileen, uma personagem difícil de compreender e cuja personalidade foi “refinada e aguçada” para servir os objetivos do romance, um ‘thriller’ negro, mas também um retrato psicológico de uma jovem mulher, que vive com um pai alcoólico, trabalha num reformatório, descreve-se como uma figura grotesca, é obcecada com o corpo, veste as roupas da mãe (que já morreu), é viciada em laxantes e tem uma atitude apática perante a vida.

A escolha deste universo narrativo é justificada pela autora com o facto de sempre se ter sentido atraída pelo “segredo” e pelas “partes escondidas das pessoas”.

“Essas áreas sórdidas são o que nos faz humanos, e não robôs estéreis com vidas perfeitas”.

Este livro, o segundo e mais recente que a escritora de 36 anos escreveu, contém muitos elementos autobiográficos, como a própria reconhece, sobretudo o espaço da ação: Nova Inglaterra, em pleno Inverno.

“Compreendo intuitivamente a paisagem emocional e literal dessa cultura, porque foi onde cresci”, diz.

Eileen tem sido considerada por alguns uma figura “repugnante”, mas também alguém com quem os leitores se identificam, porque sendo a narradora da história, revela todo o seu mundo interior, carregado de sentimentos e pensamentos sórdidos e por vezes grotescos.

“Não conheço ninguém exatamente como Eileen, no que respeita às suas obsessões e inseguranças, mas acho que somos ensinados a revelar apenas os nossos pontos fortes e a manter as nossas fraquezas escondidas. Eileen é a apoteose disso, porque ouvimos sua voz por dentro. Ela não é nojenta para outras pessoas, só para si mesma”.

No entanto, Otessa Mosfegh confessa que “há muito de Eileen” no seu “interior”, como acredita que há em qualquer pessoa.

Esta personagem já foi comparada com personagens do universo de David Foster Wallace (1962-2008), escritor em destaque no festival, por ser autor de uma frase, tema de um dos debates: “O trabalho da boa ficção é confortar o perturbado e perturbar quem está confortável”.

Esta é uma afirmação que se pode aplicar à escrita de Moshfegh, de acordo com aquilo que têm sido as criticas aos seus romances, embora a autora afirme que não procura “consolar ou causar desconforto” a quem a lê, apenas tenta transmitir a sua própria imaginação.

“Mas eu tenho a impressão de que os meus livros têm o efeito que Wallace descreveu”, reconhece, e acrescenta: "Se isso é verdade, então é maravilhoso”.

Sobre o processo de criação das histórias e das personagens, fala com a simplicidade de quem não tem quaisquer rituais específicos.

“Quero escrever qualquer coisa, então sento-me e escrevo. As histórias nascem enquanto eu trabalho”.

As suas inspirações “são os sinais da vida”, pode ser uma palavra que ouve na rádio, ou uma pessoa na casa de banho ao lado, revela.

Otessa Moshfegh descobriu-se como escritora na adolescência e conta como sentiu “o mundo tremer”, quando acabou de escrever.

“Foi tão emocionante, tão gratificante, fez-me sentir enorme e unida a uma fonte de energia que estava além de mim, não havia como voltar atrás”.

Contribui para a sua produção literária a mistura de influências que recebeu por via das diferentes nacionalidades dos pais.

“É impossível dizer todas as maneiras pelas quais os meus pais me influenciaram. Não ser estritamente americana deu-me alguma objetividade, que me permite permanecer desapegada quando as coisas acontecem”.

O prémio e a nomeação que recebeu com o segundo romance não lhe impuseram qualquer pressão ou bloqueio quanto à escrita de outro livro, por a fasquia estar elevada ou os leitores esperarem mais dela.

“Aprendi muito sobre como gerir o meu tempo e energia em torno de prémios e aclamações, porque essas coisas não me ajudam a tornar-me uma escritora melhor, e não fazem o meu trabalho melhor. É sempre uma coisa boa ser reconhecida e apreciada, mas, no final, sou eu que sou responsável pelo meu trabalho e pela minha felicidade. Se depender da minha popularidade, estou condenada”.

O seu próximo romance – “My Year of Rest and Relaxation” – será publicado este ano, mas a autora revela um pouco sobre aquilo que trata: “É uma história que se passa em 2001, na cidade de Nova Iorque, e segue a vida de uma mulher que se esforça muito para dormir durante um ano”.

LUSA

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