“Já não nos bastava ficar sem teto e hoje ficamos sem chão”, desabafou Cátia Guarda, olhos postos no bote onde seguia a avó Gabriela, de 83 anos, e o filho Afonso, os últimos a ser retirados das habitações na Ponte das Mestras, em Leiria, que hoje de manhã ficaram cercadas pela águas.
Cátia ainda conseguiu sair pelo próprio pé para pôr a salvo ovelhas, que pastavam nas traseiras do prédio da família Ferreira. Mas, Gabriela e Afonso precisaram da ajuda dos militares, que retiraram oito pessoas só daquela rua.
“Há cerca de 15 pessoas que não querem sair das suas casas”, contou à Lusa o Tenente Nunes do corpo de fuzileiros, explicando que não podem obrigar ninguém a sair, apenas alertar para os perigos.
Por volta das 12:00, os militares circulavam na rua com água pela cintura e as previsões eram de agravamento da situação, uma vez que o rio Lis continuava a subir, contou à Lusa Paulo Oliveira, Comandante do setor Alfa dos Bombeiros Sapadores de Leiria, responsável “pela cidade de Leiria e pelas freguesias a sul”.
Paulo Oliveira teve de regressar hoje de manhã à Ponte das Mestras, depois de uma noite a “bater de porta em porta” numa ação preventiva a avisar para a subida das águas.
Foram poucos os que decidiram deixar as suas casas logo na quarta-feira. Hoje, muitos precisaram de ajuda, mas também há quem resista, como Álvaro Oliveira, 77 anos, que diz não ter medo da chuva nem das cheias. A decisão de Álvaro deixa amigos e funcionários preocupados.
Do viaduto que dá para a Ponte das Mestras, José Rodrigues tenta falar com o patrão. “Ele não sai de casa, diz que já assistiu a cinco cheias e que já está habituado”, contou José Rodrigues.
Ao seu lado, Paula Silvina tenta ter noticias da “Dona Josefa, que vive ali numa casa, que está cheia de água”, contou à Lusa, entre lágrimas.
Muitas das casas que hoje estão isoladas, sentiram na última semana os efeitos da tempestade Kristin.
O telhado do prédio onde vive Gabriela e Cátia está parcialmente destruído, mas não conseguem arranjar quem o arranje.
“Tenho tirado folgas que tinha em atraso e agora parece-me que terei de meter férias, porque não consigo voltar para o trabalho nesta situação”, disse Cátia Guarda, mostrando os calos das mãos, sinais de uma semana “inteira a apanhar água com a esfregona”. O filho adolescente também continua sem aulas, porque a escola foi atingida pela tempestade e ainda não reabriu.
Cátia tenta combater o desanimo até porque sabe que ainda há quem esteja pior: “Há quem continue sem água, nem luz. Há não nem tenha o que comer ou não tenha idade para estas tragédias, como a minha avó”, lamentou a mulher de 43 anos.
Gabriela foi levada pelos bombeiros para a Igreja da Cruz de Areia, juntamente com outros moradores da zona. Antes de entrar no carro rumo à igreja desabafou: “Vivo nesta rua há 63 anos e nunca tinha visto nada assim”.
Num outro ponto da cidade, uma equipa da proteção civil tenta chegar a casa de uma senhora, que está rodeada de água. À Lusa, o responsável explicou que o rio, que antes passava junto a um dos lados da vivenda, desdobrou-se em dois” e a casa da idosa transformou numa espécie de ilha, inacessível a pé ou de carro.
Onze pessoas morreram em Portugal desde a semana passada na sequência da passagem das depressões Kristin e Leonardo, que provocaram também muitas centenas de feridos e desalojados.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o fecho de estradas, escolas e serviços de transporte, e o corte de energia, água e comunicações são as principais consequências materiais do temporal.
As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo são as mais afetadas.
O Governo decretou situação de calamidade até domingo para 68 concelhos e anunciou um pacote de medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.
Lusa