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Sócrates ataca discurso a favor do rearmamento da Europa por causa da Ucrânia
Foto: Reuters
Política 15 abr, 2025, 16:15

Sócrates ataca discurso a favor do rearmamento da Europa por causa da Ucrânia

O antigo primeiro-ministro socialista José Sócrates contesta o discurso do “bom senso” que diz justificar a ideia a favor do rearmamento da Europa e considera que a Rússia revela fraqueza militar na invasão da Ucrânia.

Estas posições constam de um artigo que o antigo líder do PS (2004/2011) publicou na segunda-feira no site brasileiro ICL Notícias, com o título “A Europa, de novo: a cultura da paz e a cultura da guerra”.

“O que vejo de pior no recente discurso sobre o rearmamento da Europa é a forma como ele é apresentado — simples questão de bom senso, dizem. Não é uma escolha, não é uma opção política, é apenas bom senso”, refere José Sócrates.

Ora, sendo uma questão de bom senso, de acordo com o antigo primeiro-ministro, então “não é necessário debate, nem boas razões”.

“A coisa é autoexplicativa: a invasão russa da Ucrânia e o abandono americano da guerra não deixam alternativa. Assim se constrói o pensamento único — chamando-lhe bom senso”, sustenta.

No seu artigo, em que nunca visa diretamente os atuais responsáveis pelas instituições europeias, José Sócrates critica “a pressão do jornalismo pela política de rearmamento”, dizendo que é tão forte “que qualquer personagem que a ponha em causa é imediatamente banida para o espaço marginal que as democracias reservam aos doidos e aos hereges”.

“Eis, portanto, a nova cultura política europeia: o discurso da paz é radical, o da violência é normal. A paz é a retórica dos fracos”, conclui.

Na perspetiva do antigo secretário-geral do PS, a invasão da Ucrânia “não aumentou a ameaça russa, mas revelou, isso sim, a sua fraqueza”.

“Se o exército russo não conseguiu em três anos derrotar a Ucrânia, não estou a ver como poderia invadir com sucesso a Europa ocidental”, advoga, antes de abordar a questão da nova política externa norte-americana com a administração de Donald Trump.

“É certo que a atual administração fragilizou a aliança transatlântica e afetou a confiança em que se baseia o artigo 5º da OTAN (um ataque a um é um ataque a todos). Estou de acordo. No entanto, a guerra da Ucrânia veio derrubar um mito de décadas — o de que a Europa precisa dos Estados Unidos para se defender. Há muito que isso deixou de ser verdade”, considera.

Segundo José Sócrates, “a Europa tem mais homens, mais tanques e mais jatos de combate que a Rússia; a Europa gasta mais em defesa do que a Rússia (os membros europeus da OTAN gastaram 476 bilhões de dólares em 2024 enquanto a Rússia gastou cerca de 140 bilhões)”.

“Estes dois indicadores parecem-me suficientes para contrariar o argumento base da corrida aos armamentos”, salienta.

José Sócrates recorre depois à História da Europa para deixar duas advertências, a primeira relacionada com “o perigo eslavo como razão militar”.

“Nunca houve imperialismo sem força militar e a Rússia não a tem. E se não a tem não constitui uma ameaça”, escreve.

Já a sua segunda advertência relaciona-se com o rearmamento alemão, com eventuais consequências nas seculares rivalidades franco-alemãs e no papel histórico da “Inglaterra” para a existência de um equilíbrio de poderes no continente europeu.

A questão do rearmamento alemão é, para José Sócrates, “a mudança essencial”.

 “É isso que a Europa deseja? Fazer regressar os jogos da balança de poder ao interior da Europa? Fazer regressar as desconfianças e os medos? Quantos anos passarão até que a França comece a temer o poder militar do seu vizinho alemão? Quando tempo demorará até que a Inglaterra comece de novo a fazer contas sobre como evitar o domínio do continente por uma única potência militar?”, questiona.

José Sócrates lamenta que a Europa esteja “reduzida a falar de guerra, de armas e de inimigos existenciais”.

“Como se a paz fosse impossível e a guerra eterna. O que está a acontecer na Europa não é apenas uma mudança de prioridades políticas, mas uma séria e profunda mudança de cultura política — a cultura da paz pela cultura da guerra”, acrescenta.

Lusa

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