Está é uma das principais conclusões de uma investigação académica que analisou os períodos eleitorais – os 10 dias anteriores e os 10 dias posteriores às eleições legislativas de 2019, 2022 e 2024.
“Nestes períodos houve um crescente uso da desinformação, mas a partir de 2022 verifica-se sobretudo uma profissionalização através da utilização mais consistente da ‘misinformation’ e da ‘malinformation’”, afirmou à Lusa, a académica Ana Filipa Joaquim.
Segundo o estudo, a desinformação deliberada foi a tipologia predominante nas três campanhas eleitorais analisadas, embora tenha perdido peso relativo ao longo do período, enquanto aumentou a utilização de conteúdos classificados como ‘misinformation’, ‘malinformation’ e sátira, evolução que a autora interpreta como sinal de diversificação das estratégias discursivas.
Para classificar os conteúdos, a investigadora recorreu a tipologias consolidadas na literatura académica, distinguindo desinformação deliberada (‘disinformation’), difusão não intencional de informação incorreta (‘misinformation’), utilização de informação verdadeira retirada do contexto (‘malinformation’) e uma quarta categoria criada especificamente para a investigação, dedicada à sátira e paródia.
“Em 2022 e 2024 há uma grande profissionalização nestas duas áreas”, afirmou a autora da investigação, referindo-se ao recurso à ‘misinformation’ e à ‘malinformation’.
Segundo Ana Filipa Joaquim, a criação desta última categoria resultou da frequência com que ‘memes’, sarcasmo e humor foram utilizados nas publicações analisadas para transmitir mensagens políticas e reduzir a responsabilização sobre os conteúdos difundidos.
Em 2019, a desinformação deliberada representava 55,77% das ocorrências identificadas na amostra.
Nas eleições seguintes, o peso relativo desta categoria desceu para 41,91% em 2022 e estabilizou nos 45,03% em 2024, ao mesmo tempo que aumentou a presença das restantes tipologias.
Segundo a investigação, a ‘misinformation’ foi utilizada sobretudo através da simplificação de temas complexos, como a habitação ou a carga fiscal, enquanto a ‘malinformation’ assentou na utilização de informação verdadeira retirada do contexto para reforçar narrativas sobre alegadas falhas institucionais.
Já os conteúdos satíricos são descritos como instrumentos que introduzem ambiguidade nas mensagens e reduzem a responsabilização discursiva.
A autora concluiu que a desinformação não funcionou de forma isolada, mas integrada com técnicas de propaganda e enquadramentos morais destinados a potenciar a circulação das mensagens nas plataformas digitais, aumentando a carga emocional e capacidade de mobilização.
A investigação identificou igualmente um crescimento dos níveis médios de interação das publicações analisadas nas três eleições.
Os gostos médios passaram de 905 para cerca de 1.500 por publicação, enquanto os comentários aumentaram de 133 para 400 e as partilhas oscilaram entre 189 e 250.
Segundo a investigação, esta evolução sugere uma maior otimização dos conteúdos e da estratégia de comunicação digital, para além do crescimento da atividade do partido nas plataformas.
Neste sentido, a autora defendeu que a combinação entre propaganda, diferentes formas de desinformação e adaptação às lógicas algorítmicas das plataformas reforçou a capacidade do partido para disputar a agenda pública.
Questionada sobre a eventual relação entre esta evolução comunicacional e o crescimento eleitoral do Chega, a investigadora afirmou que o estudo não permite estabelecer uma relação de causalidade.
“O que posso afirmar é que houve um aumento da utilização destas estratégias, um crescimento do envolvimento nas redes sociais e também um crescimento eleitoral. A minha investigação não demonstra que uma realidade tenha provocado a outra”, afirmou.
Ana Filipa Joaquim espera ainda que a investigação contribua para reforçar o pensamento crítico perante conteúdos políticos difundidos nas plataformas digitais.
“Gostava que houvesse um alerta para que as pessoas procurassem compreender o contexto das mensagens e não aceitassem como evidente tudo aquilo que aparenta ter soluções simples”, referiu.
Lusa