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Constituição da República Portuguesa traduzida para língua mirandesa
Foto: RTP
Política 7 abr, 2026, 16:32

Constituição da República Portuguesa traduzida para língua mirandesa

A Constituição da República Portuguesa tem uma versão em mirandês, numa tradução da responsabilidade da Associaçon de Lhéngua i Cultura Mirandesa (ALCM), que levou mais de meio ano a ser concluída, revelou hoje a associação.

Em declarações à agência Lusa, Alcides Meirinhos, da ALCM, disse que existe a necessidade de a língua mirandesa se afirmar na legislação nacional e nada melhor do que comemorar os 50 anos da Constituição e os 25 anos desta associação, apresentando uma versão em mirandês da Lei fundamental do país.

“Esta versão da Constituição da República Portuguesa, com as suas sete revisões, conta a partir de agora com uma versão em língua mirandesa. Este foi um desafio deveras aliciante, conseguir um documento em língua mirandesa, para fazer sentir que o mirandês é, a par da língua portuguesa, uma língua de Portugal e que pode ser utilizada em todos os contextos”, explicou o também tradutor desta versão da Constituição da República Portuguesa.

Segundo a ALCM, numa nota enviada à Lusa, “mais do que um exercício jurídico ou académico, esta tradução assume-se como um gesto profundamente cultural”. “A língua mirandesa, expressão viva de uma comunidade, de uma história e de uma forma singular de ver o mundo, encontra nesta iniciativa uma nova afirmação da sua vitalidade e relevância no contexto nacional”, indicou.

De acordo com Alcides Meirinhos, houve a necessidade de “auditar” a tradução da Constituição a nível jurídico e, por esse motivo, foi convidada para o efeito a jurista Maria da Glória Lourenço, que tem a língua mirandesa como língua materna. Segundo o responsável, o seu contributo foi essencial para assegurar o rigor e a sensibilidade linguística e jurídica desta versão.

“Houve a necessidade de auditar a mesma Constituição a nível jurídico e legal e nada melhor que uma jurista associada da ALCM que se disponibilizou a fazer este trabalho conjunto. No fundo é a adequação dos termos legais à língua mirandesa, para evitar conflitos conceptuais entre as duas línguas”, justificou.

Para a ACLM, a Constituição, enquanto pilar da democracia portuguesa, ganha assim uma nova voz — uma voz enraizada no território, na tradição oral e escrita, e no património imaterial que o mirandês representa.

“Este trabalho contribui para aproximar os falantes da sua Lei fundamental, reforçando o sentimento de pertença e valorizando a diversidade linguística como riqueza coletiva”, vincou.

Esta versão da Constituição aguarda o dia para a sua apresentação ao público, numa data ainda não definida.

Alcides Meirinhos lembrou que há já outros documentos de relevo que estão traduzidos para língua mirandesa, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, publicada no ‘site´’ da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), bem como textos do Diário da República (DR).

Alcides Meirinhos recorda ainda que também há obras de autores portugueses já traduzidas para mirandês, mas que ainda aguardam publicação, como “Morreste-me”, de José Luís Peixoto, e o “Nosso Reino”, de Valter Hugo Mãe.

Conhecidos com tradução em mirandês estão sete álbuns de Banda Desenhada do Astérix e um das aventuras de Tintin.

“Mensagem”, de Fernando Pessoa, “Os Lusíadas”, de Luís Vaz de Camões, e “Os Quatro Evangelhos”, entre outros textos, têm também a sua versão mirandesa.

A ACLM, na nota emitida, assume o compromisso na defesa, promoção e dignificação da Língua Mirandesa, acreditando que iniciativas como esta ajudam a perpetuar a sua transmissão às gerações futuras e a consolidar o seu lugar no panorama cultural português.

O mirandês foi reconhecido oficialmente há 27 anos, através da lei 7/99, que fez desta língua a segunda oficial em Portugal. Aprovada em 17 de setembro de 1998, esta lei entrou em vigor a 29 de janeiro de 1999.

Lusa

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