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Imagem de Campanário mantém tradição das açucenas
Eventos 19 set, 2016, 12:19

Campanário mantém tradição das açucenas

Cortejo das Açucenas está associado à Festa de Nossa Senhora do Bom Despacho

Centenas de moradores do Campanário, no concelho da Ribeira Brava, Madeira, cumprem na sexta-feira a tradição de delapidar as serras da freguesia vizinha de milhares de açucenas, para realizar o secular cortejo da festa da localidade.

"O Cortejo das Açucenas está associado à Festa de Nossa Senhora do Bom Despacho, no Campanário, sendo conhecido também como a Festa da Capelinha", devoção que remonta ao século XVII, explicou à agência Lusa o presidente da Associação Desportiva desta freguesia da zona oeste da ilha da Madeira.

Luís Drumond salientou que, como manda a tradição, na madrugada da sexta-feira que antecede ao último fim semana de setembro, "centenas de pessoas do Campanário dirigem-se até às serras da Quinta Grande , na zona das Fontaínhas, e recolhem as açucenas que nesta altura do ano nascem de modo espontâneo".

Depois, transportam as flores, também conhecidas como beladonas, em cestos, outros recipientes ou em molhos, num animado cortejo, em que sobressai o tom branco rosado e o peculiar cheiro das açucenas, percorrendo cerca de dez quilómetros da estrada regional naquela localidade, até chegarem à pequena capela datada de 1672, cerca das 13:00.

"O cortejo culmina com a chegada à capela, onde depositam as flores que, por sua vez, servem para ornamentação deste pequeno, mas muito enraizado arraial popular", sublinhou o responsável.

Luís Drumond considera que nos dias de hoje seria "impensável" dar início a uma tradição deste tipo, admitindo que, "no contexto atual, se calhar, poderia considerar-se como ‘roubar’ as flores da freguesia vizinha".

"Julgo que seria bastante conflituoso. Não estou a imaginar uma freguesia ter nas suas terras flores que, obviamente, valorizam, e irem pessoas de uma outra freguesia, às centenas, recolherem as flores todas", argumentou, opinando que tal não aconteceria "de modo muito pacífico", pois provocaria "muita polémica e conflitualidade".

Contudo, diz ser preciso "enquadrar que a festa e a tradição é tão remota que, seguramente, quando se iniciou e consolidou não havia um ‘roubo’, porque se estava dentro da mesma freguesia", recordando que o Campanário é uma localidade que tem 501 anos e antes integrava a Quinta Grande, localidade que foi elevada a essa categoria apenas "em 1848, há 168 anos".

"De facto, as cores das açucenas, o conjunto das pessoas que são às centenas, o percorrer da estrada regional dá um cartaz singular, nos tempos atuais", vincou, mencionando não ser conhecida a "data precisa da origem" desta festa que, apontou, é, "seguramente, uma tradição secular".

Luís Drumond frisou que este é "um arraial que tem um cheiro específico e uma cor específica", que tem conseguido cativar cada vez mais pessoas, sendo o cortejo das açucenas "muito espontâneo" e inclui muita animação, não faltando as cantorias e uma paragem no caminho para beber poncha e outras bebidas típicas da ilha.

Quanto às flores colhidas nas serras da freguesia vizinha, disse que "dominam este arraial", sendo "colocadas no interior e exterior da capela", sendo utilizadas para ornamentar os pórticos criados para o efeito, bem como os mastros e travessões colocados na zona.

Luís Drumond salientou, ainda, que esta é a única altura do ano em que esta flor surge espontaneamente, sobretudo, nas serras da localidade, pelo que a festa "não podia realizar-se um mês mais cedo ou mais tarde", indicando existir sobretudo "uma concentração extraordinária" desta espécie nas serras da zona das Fontaínhas.

Apontando que "a açucena tem a particularidade de nascer de um tubérculo, de modo natural", o responsável afirmou que teve "a oportunidade de observar que em algumas zonas da serra que foram consumidas pelas chamas, nos incêndios ocorridos recentemente, as açucenas já estão a florir".

Também salientou que a açucena, como nasce de um tubérculo, mesmo em caso de adversidade, como o fogo, este "permanece, ‘rebenta’ e consegue produzir a flor", considerando que é esta regularidade que mantém a tradição.

"Se não houvesse essa regularidade, poder-se-ia ter perdido" esta tradição secular da Madeira, concluiu.

C/Lusa

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