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Regressar à Terra é mais duro do que viajar para o espaço
Foto: Lusa
Ciência 9 jun, 2026, 15:29

Regressar à Terra é mais duro do que viajar para o espaço

A astronauta norte-americana Peggy Whitson admitiu hoje que regressar ao planeta Terra é mais duro do que viajar até ao espaço, e sublinhou o papel da fisiologia na recuperação e readaptação do corpo à gravidade após o regresso.

“A gravidade é uma porcaria”, disse, em tom de brincadeira, perante uma plateia de alunos e professores da Faculdade de Motricidade Humana (FMH), da Universidade de Lisboa.

Astronauta, bioquímica e vice-presidente da Axiom Space, Peggy Whitson esteve hoje na FMH para a assinatura de um memorando de entendimento no âmbito da Axiom Space University Alliance, que a faculdade passou a integrar.

Numa sessão dedicada aos “horizontes do espaço”, partilhou o seu percurso, episódios das várias viagens ao espaço realizadas enquanto astronauta da NASA e, mais recentemente, da Axiom, e lições que aprendeu não só durante as missões que integrou e comandou, mas também durante os 10 anos em que já trabalhava na NASA e, ano após ano, era rejeitada do programa espacial.

Perante um auditório de especialistas em motricidade humana, muitas das perguntas que a primeira mulher a comandar uma missão na Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês) recebeu foram, no entanto, sobre como se prepara o corpo humano para as condições extremas a que será exposto no espaço e as alterações experienciadas.

“Estar no espaço é a melhor parte de estar no espaço”, começou por dizer, explicando que a microgravidade obriga o corpo e o cérebro a funcionarem de maneira diferente daquela a que estão habituados.

No entanto, e após passar quase dois anos da sua vida no espaço, entre as várias expedições em que participou, sobretudo na ISS, onde chegou a estar quase 300 dias seguidos, Peggy Whitson admite que, fisicamente, o mais duro é regressar ao planeta Terra.

Enquanto estão na ISS, os astronautas continuam a treinar para minimizar problemas como a atrofia muscular, a perda de massa óssea (que acontece de forma mais rápida no espaço) e a deterioração neuromotora, mas o impacto no corpo humano é, ainda assim, significativo, mesmo em missões mais curtas.

“Há problemas de curta duração e problemas de longa duração. A fisologia muda muito”, referiu, partilhando que, da sua experiência, o impacto do regresso à gravidade da Terra é maior no sistema neurovestibular e na coordenação.

O papel dos fisiologistas é, por isso, essencial, sublinhou Peggy Whitson, recordando que na última missão da Axiom em que participou à ISS, e que durou apenas 16 dias, em 2025, muitos dos protocolos foram alterado e “o regresso foi muito mais fácil”.

Um dos responsáveis pelo treino de preparação para essa missão foi o fisiologista português Emiliano Ventura, ex-aluno da FMH.

“A resposta ao espaço é muito individual, toda a gente experiencia o espaço de forma diferente e a abordagem que devemos ter é a mesma que temos com atletas individuais”, explicou o fisiologista, considerando que a investigação “ainda está no início”.

A participação da FMH na Axiom Space University Alliance representa também uma oportunidade para aprofundar esse conhecimento, defendeu o presidente da Faculdade, Pedro Passos.

“Nunca ninguém aqui tinha pensado como é que isto se consegue fazer, como é que vamos adaptar todo este conhecimento para o espaço”, disse o responsável em declarações aos jornalistas, adiantando que a faculdade já está a preparar um projeto de investigação na área e espera angariar financiamento para outros projetos.

“Quem sabe, um dia vamos ter aqui algum tipo de graduação associada às questões espaciais”, antecipou.

Integrada igualmente na aliança, a Agência Espacial Portuguesa, que já colabora com a FMH, por exemplo, na seleção dos alunos para participar num voo de gravidade zero no âmbito da iniciativa “Astronauta por um dia”, concorda tratar-se de uma área de investigação com muita margem para crescer.

“Esta será uma ótima oportunidade para os estudantes da FMH expandirem os seus horizontes e começarem a trabalhar e a pensar o corpo humano para o espaço”, disse Hugo Costa, do Conselho Executivo da agência, que aponta também a Medicina Espacial como uma área a expandir.

Lusa

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