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“Já não nos bastava ficar sem teto e hoje ficamos sem chão”
Foto: Lusa
Sociedade 5 fev, 2026, 15:36

“Já não nos bastava ficar sem teto e hoje ficamos sem chão”

Aos 83 anos, Gabriela Ferreira foi hoje retirada de casa num bote do Exército, ao contrário de outros vizinhos da sua rua, em Leiria, que se recusaram a sair apesar da anunciada subida das águas.

“Já não nos bastava ficar sem teto e hoje ficamos sem chão”, desabafou Cátia Guarda, olhos postos no bote onde seguia a avó Gabriela, de 83 anos, e o filho Afonso, os últimos a ser retirados das habitações na Ponte das Mestras, em Leiria, que hoje de manhã ficaram cercadas pela águas.

Cátia ainda conseguiu sair pelo próprio pé para pôr a salvo ovelhas, que pastavam nas traseiras do prédio da família Ferreira. Mas, Gabriela e Afonso precisaram da ajuda dos militares, que retiraram oito pessoas só daquela rua.

“Há cerca de 15 pessoas que não querem sair das suas casas”, contou à Lusa o Tenente Nunes do corpo de fuzileiros, explicando que não podem obrigar ninguém a sair, apenas alertar para os perigos.

Por volta das 12:00, os militares circulavam na rua com água pela cintura e as previsões eram de agravamento da situação, uma vez que o rio Lis continuava a subir, contou à Lusa Paulo Oliveira, Comandante do setor Alfa dos Bombeiros Sapadores de Leiria, responsável “pela cidade de Leiria e pelas freguesias a sul”.

Paulo Oliveira teve de regressar hoje de manhã à Ponte das Mestras, depois de uma noite a “bater de porta em porta” numa ação preventiva a avisar para a subida das águas.

Foram poucos os que decidiram deixar as suas casas logo na quarta-feira. Hoje, muitos precisaram de ajuda, mas também há quem resista, como Álvaro Oliveira, 77 anos, que diz não ter medo da chuva nem das cheias. A decisão de Álvaro deixa amigos e funcionários preocupados.

Do viaduto que dá para a Ponte das Mestras, José Rodrigues tenta falar com o patrão. “Ele não sai de casa, diz que já assistiu a cinco cheias e que já está habituado”, contou José Rodrigues.

Ao seu lado, Paula Silvina tenta ter noticias da “Dona Josefa, que vive ali numa casa, que está cheia de água”, contou à Lusa, entre lágrimas.

Muitas das casas que hoje estão isoladas, sentiram na última semana os efeitos da tempestade Kristin.

O telhado do prédio onde vive Gabriela e Cátia está parcialmente destruído, mas não conseguem arranjar quem o arranje.

“Tenho tirado folgas que tinha em atraso e agora parece-me que terei de meter férias, porque não consigo voltar para o trabalho nesta situação”, disse Cátia Guarda, mostrando os calos das mãos, sinais de uma semana “inteira a apanhar água com a esfregona”. O filho adolescente também continua sem aulas, porque a escola foi atingida pela tempestade e ainda não reabriu.

Cátia tenta combater o desanimo até porque sabe que ainda há quem esteja pior: “Há quem continue sem água, nem luz. Há não nem tenha o que comer ou não tenha idade para estas tragédias, como a minha avó”, lamentou a mulher de 43 anos.

Gabriela foi levada pelos bombeiros para a Igreja da Cruz de Areia, juntamente com outros moradores da zona. Antes de entrar no carro rumo à igreja desabafou: “Vivo nesta rua há 63 anos e nunca tinha visto nada assim”.

Num outro ponto da cidade, uma equipa da proteção civil tenta chegar a casa de uma senhora, que está rodeada de água. À Lusa, o responsável explicou que o rio, que antes passava junto a um dos lados da vivenda, desdobrou-se em dois” e a casa da idosa transformou numa espécie de ilha, inacessível a pé ou de carro.

Onze pessoas morreram em Portugal desde a semana passada na sequência da passagem das depressões Kristin e Leonardo, que provocaram também muitas centenas de feridos e desalojados.

A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o fecho de estradas, escolas e serviços de transporte, e o corte de energia, água e comunicações são as principais consequências materiais do temporal.

As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo são as mais afetadas.

O Governo decretou situação de calamidade até domingo para 68 concelhos e anunciou um pacote de medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.

Lusa

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