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Sociedade 01 jul, 2021, 12:09

“Europeus nos estádios sem máscara e África sem poder comprar vacinas”

O enviado especial da União Africana para a aquisição de vacinas lamentou hoje que a Europa não venda vacinas a África, assinalando a grande diferença entre os dois continentes, quando "os europeus já podem ver futebol nos estádios sem máscaras".

"A União Europeia [UE] tem fábricas de vacinas, tem centros de produção em vários países, mas nem uma dose saiu de uma fábrica europeia para África", criticou Strive Masiyiwa durante a conferência de imprensa semanal do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças da União Africana (África CDC), na qual vincou que o pedido é para comprar vacinas, e não para doações.

"Não se pode dizer que nos apoiam, os países europeus já vacinaram tantas pessoas que agora podem ver futebol nos estádios sem máscaras, enquanto os africanos, pelo contrário, têm menos de 1% de vacinação", apontou o responsável.

Respondendo a uma questão sobre o facto de a vacina produzida na Índia ficar de fora do certificado digital que permite o livre trânsito na Europa, o responsável disse que a decisão era preocupante.

"Os europeus financiaram a Covax, portanto como é que chegámos a um ponto em que dão dinheiro à Covax, que vai à Índia para comprar vacinas e depois dizem-nos que não são válidas", questionou Strive Masiyiwa, acrescentando: "Fomos falar com os produtores europeus, dizem-nos que estão no limite da produção e referem-nos para a Índia, por isso agora é a altura certa para a Europa abrir as suas fáricas para que possamos comprar vacinas, porque o que queremos é comprar vacinas, não são doações".

Em causa está o facto de a vacina produzida na Índia sob licença da AstraZeneca, a mais usada em África, ter ficado de fora do certificado digital aprovado pela UE, que entra hoje em vigor.

"Olhando para os dados científicos, não há razão para esta decisão, por isso apelamos à UE para se afastar de políticas que minem e tornem difícil o combate à pandemia", acrescentou o responsável do África CDC, John Nkengasong, durante a conferência de imprensa de hoje, dizendo que espera "que a UE reverta a sua posição muito rapidamente".

A Comissão da União Africana e o África CDC mostraram-se preocupados com a aplicabilidade do certificado digital da União Europeia, temendo a não inclusão das vacinas inoculadas em África.

Num comunicado partilhado no portal do África CDC na segunda-feira, os dois organismos dizem que “registaram com preocupação as recentes comunicações sobre a aplicabilidade do certificado digital da EU [União Europeia]” perante as diferentes vacinas contra a covid-19.

No documento, saúdam o certificado e “o seu potencial para facilitar significativamente a livre circulação segura em todos os Estados-membros da UE e em certos países associados”, que apelidam de “um passo significativo”.

“Contudo, as atuais diretrizes de aplicabilidade põem em risco o tratamento equitativo das pessoas que receberam as suas vacinas em países que beneficiam do mecanismo Covax, apoiado pela UE, incluindo a maioria dos Estados-membros da UA [União Africana]”, alertaram os dois órgãos regionais.

Já esta semana, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Augusto Santos Silva, disse que o modelo definido na Europa para o certificado digital que permite viagens na região será aplicado a países terceiros, respondendo às preocupações da União Africana (UA).

"O passo seguinte [face ao regulamento que entra hoje em vigor] é utilizar os princípios deste modelo para as negociações com países terceiros no que diz respeito ao reconhecimento recíproco de vacinações", respondeu o governante à Lusa, quando questionado sobre as preocupações da UA por a vacina produzida na Índia sob licença da AstraZeneca, a mais usada em África, ter ficado de fora do certificado digital.

O passaporte contempla apenas as vacinas aprovadas pela EMA (Agência Europeia de Medicamentos): Pfizer/BioNTech, Moderna, AstraZeneca e Janssen.

Citando documentos da Comissão Europeia, as organizações regionais africanas argumentam que a vacina Covishield, produzida pelo Serum Institute of India (SII), maior fabricante de vacinas do mundo, com a licença da AstraZeneca, está excluída deste certificado digital.

“Estes desenvolvimentos são preocupantes, dado que a vacina Covishield tem sido a espinha dorsal das contribuições da Covax, apoiada pela UE para os programas de vacinação dos Estados-membros da UA. Além disso, dado que o objetivo expresso para a produção do Serum Institute of India é servir a Índia e países de menores rendimentos, o SII pode não solicitar uma autorização de comercialização a nível da UE, o que significa desigualdades no acesso aos ‘passes verdes’ criados”, alertaram.

Nesse sentido, a Comissão da UA e o África CDC instaram a Comissão da UE a “considerar o aumento do acesso” no caso da vacinação realizada com recurso às vacinas “consideradas adequadas para o lançamento global através do mecanismo Covax”.

O continente africano já ultrapassou os 5,5 milhões de casos de contaminação por Covid-19, anunciaram hoje as autoridades africanas sanitárias, apontando que há 88% de recuperações, equivalente a 4,8 milhões de pessoas.

C/Lusa 

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