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Afastamento de clérigos ligados a abusos deve ser avaliado caso a caso
Sociedade 15 abr, 2022, 20:08

Afastamento de clérigos ligados a abusos deve ser avaliado caso a caso

O cardeal-patriarca de Lisboa defendeu hoje que um eventual afastamento preventivo de clérigos em funções ligados a abusos sexuais na Igreja Católica deve ser analisado “caso a caso”.

“Como não sei de quem se trata, o que posso dizer em geral e para se aplicar no concreto, é que cada caso é um caso. Tem de se ver, quem tiver de o ver. No meu caso não conheço nenhum, mas o que houver que ser feito, da melhor maneira que puder ser feito, há de ser feito. […] Esperemos por aquilo que se investigue e depois proceda-se em conformidade”, disse o cardeal-patriarca de Lisboa, Manuel Clemente.

O cardeal-patriarca falava aos jornalistas no final da sua homilia da Paixão do Senhor, enquadrada nas celebrações da Páscoa, que decorreu esta tarde na Sé de Lisboa.

A comissão independente criada para investigar os abusos sexuais cometidos na Igreja Católica desde 1950 anunciou esta semana, em conferência de imprensa, que entre as 290 denúncias válidas recebidas foi possível identificar situações de ocultação ou encobrimento, incluindo por parte de bispos que continuam no ativo.

Manuel Clemente insistiu que o afastamento desses clérigos como medida preventiva tem que ser analisado “caso a caso” e, depois de na quinta-feira ter pedido perdão às vítimas e defendido que é necessário “prevenir convenientemente o futuro”, hoje sublinhou que a prevenção deve acontecer “não só na igreja, como na sociedade em geral”.

“Ninguém nasce na igreja e as pessoas transportam também para os espaços eclesiais aquilo que muitas vezes começou lá fora. Da nossa parte, e como membros ativos desta sociedade responsável, [devemos] fazer todo o possível para prevenir e na medida do possível remediar. Sobretudo estar ao lado de quem sofre para que a vida se recomponha. Há sempre vida. É isso que precisamos de fazer”, disse.

O cardeal-patriarca disse ainda que “esses perdões em geral podem-se pedir”, mas que, para situações concretas, “é preciso encontrar reconciliação, caso a caso, pessoa a pessoa, situação a situação”.

“Uma atitude geral de disponibilidade para corrigir, para reconhecer o que foi mal feito, isso é o que fazemos em cada celebração. Na igreja essa é uma atitude básica, porque para estarmos bem precisamos de nos por no sítio certo. Se é preciso arrepender, então arrependamo-nos e vamos para a frente”, disse.

Sobre o facto de haver ainda comissões diocesanas que não responderam ao pedido de contacto e informação da comissão independente, Manuel Clemente disse que isso acontecerá num prazo máximo de 15 dias, como previsto.

“O que ficou combinado é que isso teria de ser feito até à próxima assembleia plenária dos bispos, que só será daqui a uns 15 dias”, disse.

A Comissão independente criada em janeiro para investigar abusos sexuais na Igreja Católica portuguesa recebeu até ao momento 290 testemunhos válidos de vítimas e 16 casos foram remetidos ao Ministério Público, por ainda não terem prescrito.

Em conferência de imprensa esta semana, o coordenador da Comissão, Pedro Strecht afirmou que os primeiros meses de trabalho permitiram já confirmar que “houve, no passado, múltiplos casos de abuso sexual” e destacou a posição de fragilidade das vítimas que as levou, na maioria dos casos, a não denunciar atempadamente os crimes.

Quanto aos agressores, a Comissão não apontou números concretos, mas admitiu que a maioria dos abusos foi cometida por pessoas diretamente ligadas à Igreja Católica. Por outro lado, reconheceu que já foi possível identificar situações de ocultação ou encobrimento, incluindo por bispos que continuam no ativo.

A Comissão indicou ainda que procurou reunir com os bispos das 21 dioceses portuguesas, dos quais cinco ainda não responderam ao pedido, e que foi constituída uma equipa científica, liderada por Francisco Azevedo Mendes, que vai investigar os arquivos diocesanos.

Até ao final do ano, a comissão pretende recolher testemunhos e denúncias de pessoas que tenham sofrido abusos na infância e adolescência, até aos 18 anos. No final dos trabalhos, será elaborado um relatório, a ser entregue à Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), que decidirá que ações tomar.

As denúncias e testemunhos podem chegar à comissão através do preenchimento de um inquérito ‘online’ em darvozaosilencio.org, através do número de telemóvel +351917110000 (diariamente entre as 10:00 e as 20:00), por correio eletrónico, em geral@darvozaosilencio.org e por carta para "Comissão Independente", Apartado 012079, EC Picoas 1061-011 Lisboa.

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