“A Marinha nunca foi o Mondego. Nem a Marinha ficará conhecida como o episódio do Mondego. Dito isto, temos que aprender com as circunstâncias com que a vida nos confronta. Aprende-se, normalmente, mais com aquelas que nos são mais difíceis do que com as que nos facilitam a nossa vida”, afirmou o almirante Jorge Nobre de Sousa, em entrevista à agência Lusa, no Centro de Experimentação Operacional da Marinha, em Tróia.
Em causa está o episódio de 11 de março de 2023, em que o Navio da República Portuguesa (NRP) Mondego falhou uma missão de acompanhamento de um navio russo a norte da ilha de Porto Santo, na Madeira, após quatro sargentos e nove praças se terem recusado a embarcar, alegando razões de segurança. Nesse período, o almirante Henrique Gouveia e Melo chefiava a Armada.
Questionado sobre que garantias pode dar de que um episódio semelhante não voltará a acontecer, o almirante Nobre de Sousa disse poder apenas dar a garantia “que qualquer chefe de Estado-Maior da Armada gostaria de dar”, ou seja, “criar as condições de liderança, de coesão institucional, de sentido de missão e de sentido de serviço que não permitam que isso volte a acontecer”.
O chefe militar disse ainda acreditar que “as pessoas têm a noção” que a Marinha “é, foi e continuará a ser” muito mais do que este episódio.
Em junho, o Tribunal Central Criminal de Lisboa considerou que o almirante Nobre de Sousa comprometeu os trabalhos do julgamento dos três militares acusados de violação de segredo de Estado por não ter notificado dois antecipadamente para comparecer em tribunal. A Marinha reconheceu uma “falha interna” e o chefe da Armada pagou uma multa de 816 euros.
Interrogado sobre o porquê desta falha, o almirante explicou que “houve um erro de processamento da informação” e que foi instaurada “uma averiguação interna”.
“É lamentável que tenha acontecido, mas aconteceu. E aconteceu na pior altura, na pior circunstância”, reconheceu.
O episódio deu origem a dois processos judiciais: um que envolve três militares por violação de segredo de Estado, cujo julgamento já começou, e outro que envolve os 13 militares por insubordinação, e que está em fase de instrução.
Foram também instaurados processos disciplinares, reabertos este ano pelo ramo depois de o Supremo Tribunal Administrativo ter considerado ilícitas as sanções aplicadas.
Interrogado sobre quando é que estes processos poderão estar concluídos, o almirante realçou que não pode pronunciar-se sobre um processo em curso “e do qual poderá haver recurso para a pessoa do chefe de Estado-Maior da Armada”.
O julgamento dos militares do Mondego vai ser retomado na próxima quarta-feira, dia 23, com a inquirição das 2 testemunhas de acusação.
Lusa