“Numa viagem faz diferentes Áfricas e quatro línguas”, disse à Lusa Andrés Carrascosa Coso, que já serviu em vários países africanos e conhece bem a realidade daquele continente.
Depois de uma primeira viagem à Turquia e ao Líbano, no final de 2025, já planeada pelo seu antecessor, e de uma breve visita ao Mónaco, África é o primeiro destino escolhido por Leão XIV, um continente onde o catolicismo tem crescido, mas que permanece palco de confrontos religiosos, nomeadamente em zonas limítrofes com o mundo muçulmano.
“Tem sido um continente muito difícil e com muitos problemas”, reconheceu o diplomata espanhol.
A primeira paragem será na Argélia, “porque é a terra de Santo Agostinho e ele é agostiniano”, com Leão XIV a aproveitar para promover o diálogo com o norte de África.
“O Magrebe é uma região particular, porque foi uma das primeiras zonas onde a cristandade foi mais forte, mas que, depois, o islão varreu” na sua conquista, recordou o núncio, salientando que, hoje, a região é de transição e de convívio inter-religioso.
Após a invasão muçulmana no século VII, a Argélia nunca teve a visita de um Papa e Leão XIV irá agora homenagear Santo Agostinho de Hipona, a antiga diocese que o cardeal Robert Prevost já havia visitado no passado, como Superior Geral dos Agostinianos.
Depois seguem-se os Camarões, um país de maioria católica onde esteve João Paulo II em 1985 e em 1995 e que tem sido palco de confrontos com os muçulmanos do Boko Haram no norte.
“Há um erro grande que é achar que todos os muçulmanos são radicais terroristas”, mas “quando começa a haver terrorismo, com esse extremismo e radicalismo, o maior número de vítimas são os próprios muçulmanos”, recordou o núncio espanhol.
Aí, Leão XIV tem encontros previstos com as comunidades muçulmana e protestante e irá visitar as zonas francófonas e anglófonas do país.
Os Camarões e a Guiné Equatorial têm como núncio o português José Avelino Bettencourt, um diplomata da Santa Sé nomeado em 2023 para este cargo.
A agência Lusa tentou obter um comentário sobre a visita junto do diploma, mas, até ao momento, não obteve qualquer resposta.
Depois dos Camarões, Leão XIV irá a Angola, país que foi visitado em 2009 por Bento XVI e em 1992 por João Paulo II, mas ficará pouco tempo na capital, optando por conhecer o santuário da Muxima, a centralidade da Kilamba e a diocese de Saurimo, junto à fronteira com a República Democrática do Congo.
Angola é um “país lusófono importante e onde a Igreja tem um papel muito relevante na sociedade”, salientou o núncio em Portugal.
Finalmente, a visita termina na Guiné Equatorial, um país cujo Presidente, Teodoro Obiang, recebeu João Paulo II em 1982, na sua segunda viagem apostólica a África.
É o único país que “fala espanhol em África” e “é simbólico” que Leão XIV o tenha incluído nesta visita, referiu Andrés Carrascosa.
“É uma viagem pela riqueza deste grande continente, povoado por diversos povos e mundos”, disse, na apresentação da visita apostólica, o diretor da sala de imprensa do Vaticano, Matteo Bruni.
Na Argélia, o Papa deverá apontar o “risco de exploração de recursos por outros, sejam indivíduos ou organizações”.
Nos Camarões, segundo Matteo Bruni, Leão XIV encontrará “um país que atravessa provações complexas devido à convivência de diversas realidades”, como as crises no Norte e Sudoeste, no Extremo Norte, ou o “veneno” do fundamentalismo, particularmente entre os jovens.
Em Angola, “uma verdadeira fonte de inspiração espiritual e uma força para a mudança”, o diretor de comunicação da Santa Sé disse que Leão XIV vai encontrar “o coração do cristianismo africano”.
Já na Guiné Equatorial, Leão XIV vai “apoiar e construir uma cultura de paz” num país em que o seu líder é acusado de várias violações dos direitos humanos, acrescentou.
Lusa