“A Igreja não é chamada a fugir da IA nem a ajoelhar-se diante dela”, mas sim a “habitá-la com alma” e “a avaliá-la com ética e a usá-la com sentido missionário”, referem os bispos, nas conclusões, hoje divulgadas, das Jornadas Pastorais do Episcopado 2026, subordinadas ao tema “Anúncio da Fé na Nova Revolução Tecnológica (IA) e na Nova Cultura”.
“Hoje é preciso criatividade cultural, competência comunicacional e responsabilidade tecnológica” para gerir um “mundo mediado por códigos e ecrãs”, refere o documento que resume os trabalhos de segunda e terça-feira das jornadas, que contou com vários peritos convidados e sucedeu à encíclica do Papa sobre o tema, a “Magnificata Humanitatas”.
Para a hierarquia católica, todos são afetados pela IA, com particular atenção aos leigos “que habitam diariamente estas plataformas e devem ser protagonistas de uma presença cristã crítica e criativa”, aos jovens, “particularmente expostos à hiperconexão, à manipulação algorítmica e à dispersão da atenção” e aos idosos e infoexcluídos, “que correm o risco de ficar para trás”.
Também as comunidades cristãs “precisam de repensar linguagens, métodos e prioridades sem perder a sua identidade”, referem os bispos, nas conclusões das Jornadas Pastorais do Episcopado 2026, hoje divulgadas.
A IA traz, consideram, uma “novidade pastoral, cultural, comunicacional e institucional. Pastoral, porque a missão já não pode limitar-se a esperar que as pessoas venham aos espaços habituais da comunidade e é necessário ir ao encontro das periferias digitais, escutar as perguntas que nascem nos ambientes ‘online’, criar percursos de acompanhamento e fazer do digital uma porta para o encontro real”.
“Não basta publicar conteúdos religiosos; é preciso comunicar com clareza, beleza, credibilidade e proximidade. Dioceses, paróquias, movimentos e organismos eclesiais terão de integrar novas competências, novas responsabilidades e novos critérios éticos no modo como organizam a sua ação”, concluíram as jornadas.
Para gerir esta questão, “a Igreja precisa de literacia digital, conhecimento básico sobre inteligência artificial, capacidade de avaliar riscos, consciência ética, sentido crítico perante a desinformação, cuidado com os dados pessoais, qualidade comunicacional, atenção às linguagens das novas gerações e maturidade espiritual para não confundir visibilidade com fecundidade pastoral”.
Segundo os bispos portugueses, é necessário “formar agentes pastorais capazes de usar ferramentas digitais sem se deixarem dominar pela lógica das métricas. O sucesso da evangelização não se mede apenas por visualizações, gostos ou partilhas, mas pela capacidade de gerar encontro, conversão, comunhão e serviço”.
“A IA deve ser instrumento, não critério último; apoio, não substituição; meio, não fim”, resumem os bispos, que defendem a “defesa da interioridade”, num tempo “saturado de respostas automáticas, notificações permanentes e conteúdos personalizados”.
Lusa