Há meses que Trump insiste que os Estados Unidos devem tomar a Gronelândia, um território autónomo da Dinamarca, Estado-membro da NATO (Organização do Tratado do Atlântico-Norte, bloco de defesa ocidental), e declarou no início desta semana que qualquer coisa menos que a ilha ártica passar para mãos norte-americanas seria “inaceitável”.
Durante um evento não relacionado na Casa Branca sobre a saúde rural, recordou hoje como tinha ameaçado os aliados europeus com tarifas sobre os produtos farmacêuticos.
“Posso também fazer isso a propósito da Gronelândia, posso impor tarifas aos países que não concordam com o [meu] plano para a Gronelândia, porque precisamos da Gronelândia para a segurança nacional. Portanto, poderei fazer isso”, declarou.
O chefe de Estado norte-americano não tinha até agora mencionado recorrer à imposição de tarifas aos aliados europeus discordantes do seu objetivo de anexar a Gronelândia.
No início desta semana, os ministros dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca e da Gronelândia reuniram-se em Washington com o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, e o secretário de Estado, Marco Rubio.
Esse encontro não sanou as profundas divergências, mas resultou num acordo para a criação de um grupo de trabalho — sobre cuja finalidade a Dinamarca e a Casa Branca apresentaram visões públicas bastante divergentes.
Os líderes europeus insistiram que cabe apenas à Dinamarca e à Gronelândia decidir sobre os assuntos relacionados com o território, e a Dinamarca afirmou esta semana que está a aumentar a sua presença militar na ilha, em cooperação com os aliados.
Em Copenhaga, um grupo de senadores e membros da Câmara dos Representantes norte-americanos reuniu-se hoje com deputados e dirigentes dinamarqueses e gronelandeses, entre os quais a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen.
No final do encontro, o líder da delegação de Washington, o senador Chris Coons, democrata do Delaware, agradeceu aos anfitriões por “225 anos como um aliado e parceiro bom e fiável”, declarando em seguida: “Tivemos um diálogo forte e robusto sobre como prolongar isso no futuro”.
A senadora Lisa Murkowski, republicana do Alasca, disse após a reunião que a visita foi reflexo de uma relação forte ao longo de décadas, acrescentando: “É uma relação que precisamos de continuar a cultivar”.
“A Gronelândia precisa de ser vista como nossa aliada, não como um bem patrimonial, e penso que foi isso que ouviram desta delegação”, rematou, num tom que contrasta com o adotado pela Casa Branca.
Trump tem procurado justificar os seus apelos para uma tomada de poder da Gronelândia pelos Estados Unidos usando o argumento da segurança nacional, repetidamente alegando que a China e a Rússia têm os seus próprios planos para a ilha dinamarquesa, que detém vastas e inexploradas reservas de minerais essenciais, não tendo excluído a hipótese de tomar o território pela força.
“Temos ouvido tantas mentiras e tantos exageros sobre as ameaças à Gronelândia, mas eu diria que as ameaças a que estamos agora a assistir vêm sobretudo do lado dos Estados Unidos”, disse Aaja Chemnitz, política gronelandesa e membro do parlamento dinamarquês que participou nas reuniões de hoje.
A senadora do Alasca destacou também o papel do Congresso na despesa e na transmissão de mensagens aos eleitores.
“Penso que é importante sublinhar que, quando se pergunta ao povo norte-americano se acha ou não que é uma boa ideia os Estados Unidos ‘adquirirem’ a Gronelândia, a grande maioria, cerca de 75%, diz ‘Não achamos que seja uma boa ideia”, afirmou.
Juntamente com a senadora Jeanne Shaheen, democrata de New Hampshire, Lisa Murkowski apresentou um projeto de lei bipartidário que proibiria a utilização de fundos do Departamento de Defesa ou do Departamento de Estado dos Estados Unidos para anexar ou assumir o controlo da Gronelândia ou do território soberano de qualquer Estado-membro da NATO, sem o consentimento desse aliado ou a autorização do Conselho do Atlântico Norte.
Lusa