“No ano em que se assinalam os 50 anos das primeiras eleições legislativas regionais, estamos a comemorar uma das partes mais bonitas da história da Madeira, porque corresponderam ao maior desenvolvimento da nossa terra”, afirmou Guida Vieira, sindicalista por quase três décadas, deputada na Assembleia Regional entre 2000 e 2004 (eleita pela UDP), e o rosto da conquista de direitos sociais para as bordadeiras de casa, um dos setores tradicionais do arquipélago.
A Madeira, recordou, era em 1976 “uma das regiões mais pobres do país e faltava de tudo um pouco”. Também “apresentava as mais altas taxa de mortalidade infantil e de analfabetismo, havia pessoas ainda a viver em furnas e barracas”.
“A pobreza era uma realidade assustadora, as vias de comunicações eram muito precárias e os transportes eram caros e raros”, relatou, numa entrevista à Lusa.
Com a implementação de órgãos de governo próprio, após as eleições de 27 de junho, o arquipélago lançou-se num processo, “que já tinha começado logo depois do 25 de Abril, de reivindicação e exigência popular para a melhoria destas condições de vida a todos os níveis”.
Guida Vieira destacou que foi desenvolvida “muita luta” para exigir um melhor ensino, casas com mais condições, planeamento familiar com apoio às famílias, melhores salários e direitos para quem trabalhava, com a cobertura de setores até então desprezados e esquecidos, como era o caso dos bordados, particularmente das bordadeiras de casa.
No seu entender, “o movimento reivindicativo das populações e dos trabalhadores forçou o Governo a satisfazer muitas das suas reivindicações”.
“Podemos afirmar que foram as duas componentes mais importantes da autonomia, que a levaram a um caminho muito positivo do ponto de vista do desenvolvimento durante estes 50 anos”, opinou.
Mas, considerou, “nem tudo correu de feição”: muito desenvolvimento foi feito “pela vontade de vários ‘lobbies’ que se foram formando e influenciaram o poder a prejudicar os setores, até então produtivos, para engrandecer tudo o que fosse ligado ao turismo”.
Esta situação fez com que “hoje haja uma dependência deste setor que desequilibra o que deveria ter sido um desenvolvimento equilibrado”, indicou.
E, por isso, argumentou, “os setores produtivos quase que se extinguiram e o turismo passou a ser massificado, causando alguns desequilíbrios que começam a causar preocupações”.
Guida Vieira, com 76 anos, admitiu que sentiu “na pele muitas vezes a discriminação, não só por ser mulher como por defender o que era considerado contracorrente”.
Encara a sua intervenção com assumido orgulho. Foram tempos que “valeram a pena, porque deixaram marcas que ainda hoje perduram, como a regulamentação da atividade das bordadeiras de casa e a lei da reforma para as mesmas aos 60 anos”, ou o feriado regional de 26 de dezembro.
A madeirense, que foi a companheira do deputado eleito nas primeiras eleições legislativas regionais Paulo Martins (entretanto falecido), referiu que a República tem protelado a resolução de outras reivindicações da Madeira, como uma lei atualizada das finanças regionais, um transporte marítimo alternativo e os preços a pagar pelo transporte aéreo.
“A insularidade nunca foi devidamente reconhecida como uma condicionante de quem é ilhéu e ainda não somos tratados como os restantes portugueses. Embora todos dizendo que defendem a autonomia, tenho dúvidas se alguma vez a compreenderam de facto”, observou.
Guida Vieira sustentou que o futuro da região “vai continuar comprometido enquanto estas questões não forem resolvidas” e sublinhou que “a Madeira não pode continuar a viver de um calendário de festas e eventos para chamar estrangeiros que a qualquer momento podem mudar de rumo”.
“Precisamos de governantes com uma visão a médio e a longo prazo que estejam realmente preocupados com o futuro sustentável da nossa pequena região, envolvendo toda a sociedade pensante e os quadros que todos os anos são formados na universidade”, vincou.
Para a ex-deputada, “o futuro não se apresenta risonho e é preciso deixar de viver só pensando no curto prazo, porque o amanhã é já aí”.
Lusa