Alegação: jornalista da RTP defendeu que “o negacionismo de direita mata e é o principal combustível dos fogos” em Espanha
Na terça-feira, 28 de julho, uma conta no X, antigo Twitter, denunciou o “jornalixo” de uma alegada opinião da correspondente da RTP em Espanha, Ana Romeu, que teria afirmado que “o negacionismo de direita é o principal combustível destes fogos” no país vizinho.
Na mesma publicação, já com mais de 53 mil visualizações, o autor defende que “é necessário privatizar a RTP para a desintoxicar desta podridão” e que “num país decente esta senhora teria que mudar de profissão imediatamente”: https://archive.ph/bg2ZT.
O ‘tweet’ é acompanhado por um vídeo de 47 segundos aparentemente extraído de um noticiário da RTP Notícias, no qual a jornalista surge em direto a partir de Navalcarnero, uma vila nos arredores de Madrid, e no qual se vislumbra que a afirmação é atribuída a alguém que não é identificado naquele excerto.
No dia seguinte, quarta-feira, entre outras críticas nas redes sociais a exigir a demissão da jornalista (https://archive.ph/8CAHu, https://archive.ph/bS3xc e https://archive.ph/o3hEI), o presidente do Chega publicou um vídeo com um excerto menor, de cerca de 8 segundos, no qual se ouve a jornalista da RTP a dizer apenas que “o negacionismo mata. O negacionismo de direita é o principal combustível destes fogos”.
Na publicação e no vídeo, com dezenas de milhares de visualizações no X, Instagram e Facebook, André Ventura questionou os leitores se “não acham que a televisão pública precisa de uma limpeza urgente?” e defendeu que “não podemos continuar a pagar salários a ativistas mascarados de jornalistas”: https://archive.ph/5hrkJ, https://archive.ph/JADdn e https://archive.ph/UlJRL.
Nenhuma das publicações sobre o tema incluíam a ligação para a alegada emissão da RTP Notícias, mas as publicações de Ventura foram eliminadas ao final do mesmo dia, apesar de o seu vídeo ainda circular nas redes (https://archive.ph/9ur2R) e de personalidades como o economista e professor catedrático António Nogueira Leite insistirem nas críticas à jornalista: https://archive.ph/7JCyV.
Factos: o vídeo é real, mas foi descontextualizado, porque a jornalista estava a parafrasear Pedro Sánchez
Através de várias pesquisas no arquivo da RTP Play, a Lusa Verifica conseguiu localizar as declarações em causa, que foram proferidas em direto no noticiário Notícias 12 de terça-feira, cerca das 12h13: https://www.rtp.pt/play/p16159/e945377/noticias-12.
Analisando o contexto integral do direto é possível perceber que a jornalista estava a citar de memória ou a parafrasear declarações proferidas naquela manhã pelo presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez, cuja intervenção original foi de imediato emitida pela RTP durante aquele direto.
“Há instantes, Pedro Sánchez falou sobre a questão dos incêndios e foi um pouco mais além. (…) Lembrou que este ano já se perderam mais de 10 vidas (…) e disse que o negacionismo mata, o negacionismo de direita é o principal combustível destes fogos e é preciso haver esse acordo [entre] todos os partidos e, sobretudo, das comunidades autónomas, de todas as instituições, se unirem num único pacto de Estado que tenha por base as questões científicas”.
No final do direto, a jornalista explicou a referência à direita, nomeadamente que “o partido de extrema-direita, o Vox, sempre foi negacionista nestas questões do clima, sempre ao lado dos agricultores e de alguma maneira não dando ouvidos à ciência” e que “o PP [Partido Popular] relativamente a esta questão é mais moderado, mas também não se compromete.”
“[O PP] continua a dizer que estes fogos na realidade têm mão humana ou foram provocados por negligência ou intencionalmente e que o principal problema é a situação do abandono rural e da limpeza dos campos”, mas “o que o Governo de Espanha diz é que, na verdade, essas são responsabilidades das comunidades autónomas e que não vai admitir que haja cortes, por exemplo, no apoio ao trabalho dos bombeiros”, defendendo que “esta emergência nacional exige uma política muito mais concertada.”
Durante o direto, a RTP emitiu também as declarações do primeiro-ministro espanhol, que surgiu a dizer que “a emergência climática está a agravar-se ano após ano e os cidadãos e as cidadãs exigem-nos que estejamos unidos na resposta, como estamos, mas também na prevenção e na reconstrução das zonas afetadas”.
Pedro Sánchez deixou também um pedido: “gostaria de fazer um único apelo e uma única reivindicação: dizer a todos os atores políticos, a todos os governos autonómicos, provinciais e locais, que o negacionismo climático é o pior dos combustíveis perante a emergência climática, e que negar a realidade e os alertas da ciência não nos prepara, bem pelo contrário, deixa-nos muito mais vulneráveis e deixa a nossa população muito mais insegura.”
Esta ideia foi posteriormente partilhada nas redes sociais do governante espanhol (https://archive.ph/va2fD e https://archive.ph/r9p0e) e também pode ser confirmada na emissão integral do evento que foi emitido em direto no YouTube: https://archive.ph/2WBm9 (a partir dos 12:49).
Nesse vídeo, aos 16:16, é igualmente possível constatar que Pedro Sánchez também disse que “é evidente que a emergência climática mata, que o negacionismo desarma quem tem de proteger-nos, porque não nos permite antecipar a envergadura do desafio que temos pela frente”.
Por isso, acrescentou que “não é aceitável que haja cortes nas políticas de mitigação e adaptação, não é aceitável que não haja colaboração entre as administrações – na prevenção e na reconstrução, não apenas na resposta” e “é importante que haja uma união de todas as forças políticas, do conjunto da sociedade, neste objetivo comum.”
Mais tarde, após o minuto 1:16:00, em respostas a questões colocadas por jornalistas, Sánchez afirmou ainda que “nas coligações de governo (…) onde a coligação do PP com o Vox está muito presente, o que acontece é que precisamente não há uma vontade clara e firme de lutar contra a emergência climática, mas o contrário – negar essa emergência climática.”
Por isso, reforçou que crê “que o negacionismo que infelizmente está a abrir caminho em algumas comunidades autonómicas é o pior dos combustíveis para lutar contra a emergência climática”.
Essas declarações também tiveram eco na imprensa espanhola e europeia, que destacaram as críticas ao “negacionismo climático da direita” e que Pedro Sánchez reforçou a ideia de que “o negacionismo mata”: https://archive.ph/s3ypD, https://archive.ph/l2H2S, https://archive.ph/8VjLQ e https://archive.ph/ai8FS (exemplos).
Contraditório: a jornalista não emitiu uma opinião
A Lusa Verifica questionou o Chega sobre se André Ventura fez alguma verificação de factos sobre a origem das alegadas declarações de Ana Romeu antes de a acusar de ser uma ativista mascarada de jornalista, ou se se limitou a reproduzir uma alegação que circula nas redes sociais, mas não obteve respostas.
Por seu lado, a jornalista da RTP esclareceu que parafraseou o primeiro-ministro espanhol, cujas declarações foram emitidas durante o direto e nas emissões seguintes. “Nos vários diretos que fiz para a emissão da RTP, desse dia, limitei-me a parafrasear o que tinha dito Pedro Sánchez no seu discurso de balanço de legislatura.”
Ana Romeu reforça que não emitiu qualquer opinião, como afirmado nas redes sociais. “Não sou eu que expresso essa opinião, explico o que foi dito pelo primeiro-ministro espanhol e, que, aliás, não é nenhuma novidade. Por diversas ocasiões, Pedro Sánchez já se referiu a este tema e à necessidade de se alcançar um pacto de Estado sobre as alterações climáticas – argumentado que essas mesmas alterações adversas do clima, tal como o negacionismo, matam.”
“Como prova disso, não se refere apenas aos incêndios deste ano que fizeram mais de 10 vítimas [mortais], fala também das tempestades e de outras catástrofes, como a Dana de Valência, que mataram mais de duas centenas de pessoas, nos últimos anos, em Espanha“, acrescenta.
A jornalista adiantou também que André Ventura retirou a publicação e pediu desculpa após ter sido contactado pela Direção de Informação da RTP, que forneceu ao presidente do Chega os diretos em que Ana Romeu referiu o discurso de Sánchez. Ventura terá alegado que foi enganado com o que lhe enviaram, mas o Chega não esclareceu à Lusa Verifica quais as razões para a eliminação das publicações.
Avaliação Lusa Verifica: Falso
É falso que a jornalista da RTP, Ana Romeu, tenha expressado em direto a opinião de que “o negacionismo mata” e que “o negacionismo de direita é o principal combustível destes fogos” em Espanha, como deram a entender várias publicações nas redes sociais, incluindo André Ventura, que publicou um excerto sem o contexto integral das declarações.
Na verdade, a jornalista partilhou aquelas afirmações enquanto parafraseava o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, cujas declarações originais foram imediatamente exibidas pela RTP Notícias durante aquele direto no Notícias 12 e em emissões seguintes.
Nessas declarações, o governante espanhol disse que “a emergência climática mata” e que “o negacionismo climático é o pior dos combustíveis perante a emergência climática”, referindo-se nomeadamente ao negacionismo de governos regionais e locais liderados por coligações entre os partidos de direita e extrema-direita, PP e Vox.
Lusa