“A situação geopolítica que a Europa enfrenta – com a guerra de agressão em curso da Rússia contra a Ucrânia e o conflito no Médio Oriente – demonstra que o nosso continente precisa de uma visão de 360 graus para a sua segurança”, afirmou António Costa, discursando na abertura da oitava cimeira da Comunidade Política Europeia (CPE), em Erevan.
“Num mundo de crescente caos, essa visão deve ser guiada por um princípio claro e abrangente: a Europa deve estar na linha da frente da defesa da ordem internacional baseada em regras, ancorada na Carta das Nações Unidas como pilar principal do multilateralismo”, acrescentou.
A capital da Arménia, Erevan, recebe hoje uma cimeira da CPE para debater a estabilidade do continente face às tensões geopolíticas mundiais sob o lema “Construir o futuro: unidade e estabilidade na Europa”.
Da lista oficial de participantes, que são mais de 40, contam 14 dos 27 chefes de Estado e de Governo europeus, incluindo o Presidente francês, Emmanuel Macron, que impulsionou a criação da CPE. O primeiro-ministro, Luís Montenegro, não participa por motivos de agenda.
O Canadá, representado pelo primeiro-ministro, Mark Carney, participa como convidado, sendo a primeira vez que um país não europeu integra uma cimeira da CPE.
“O mundo de hoje não é marcado apenas por crescente instabilidade, existe uma segunda tendência importante – a crescente multipolaridade do mundo. Esta é uma tendência que exige uma parceria multipolar para promover uma paz sustentável e garantir prosperidade partilhada e, em todos estes níveis, o Canadá é mais do que um país de valores semelhantes, é um parceiro próximo”, observou António Costa no seu discurso.
Para o antigo primeiro-ministro português, “o Canadá partilha a visão global de segurança da Europa de 360 graus”.
Outra novidade desta cimeira da CPE é o facto de o encontro se realizar pela primeira na região do Cáucaso do Sul, marcada por tensões históricas e conflitos territoriais, visando reconhecer o percurso geopolítico da Arménia, apesar da sua dependência da Rússia, e também assinalar os esforços de paz com o Azerbaijão relativamente ao território de Nagorno-Karabakh, que tornaram possível a reunião neste local.
“A cimeira de hoje é verdadeiramente histórica. É histórica porque, pela primeira vez, a CPE reúne-se aqui, no Cáucaso do Sul, e porque coloca a Arménia no coração da Europa, que é exatamente onde pertence – à luz da sua longa e rica história”, referiu António Costa.
O presidente do Conselho Europeu destacou ainda que o encontro de alto nível nesta região foi possível “graças ao acordo entre a Arménia e o Azerbaijão”, que “é uma história de paz na Europa que deve ser celebrada, num mundo em que a escalada e a guerra parecem dominar”.
O Presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, participa nesta cimeira por videoconferência, o que é significativo, dada a assinatura dos acordos de paz entre os dois países no verão passado.
A cimeira será, ainda assim, dominada pelo contexto internacional, dado que a UE quer manifestar o seu apoio contínuo à Ucrânia face à invasão russa e que o conflito no Médio Oriente continua a ter implicações, sobretudo ao nível energético.
Quanto ao Cáucaso do Sul, a estratégia da UE passa por reforçar a sua influência através de apoio político, económico e institucional, tentando ao mesmo tempo reduzir a dependência destes países em relação à Rússia.
A Comunidade Política Europeia é uma plataforma de diálogo e cooperação que junta países da UE e vários Estados vizinhos do continente, criada em 2022, em contexto de invasão russa da Ucrânia.
Lusa