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Cultura 13 mar, 2018, 23:35

Debate de abertura do Festival Literário da Madeira marcado pelo “direito a ofender”

O Festival Literário da Madeira abriu hoje com um debate entre Mick Hume e Ricardo Araújo Pereira sobre a liberdade de expressão, que se centrou nas questões da liberdade de ofender e do politicamente correto (Vídeo)

A mesa de conversação, moderada pelo jornalista João Paulo Sacadura, estava subordinada ao tema “O que é a liberdade de expressão? Sem a liberdade para ofender, cessa de existir”.

Mick Hume, jornalista e defensor da liberdade de expressão e de imprensa, começou por afirmar que “vale dizer tudo” e que “o direito a ofender é muito importante”, bem diferente do direito a “ameçar”, o que já extravasa os limites da opinião e tem implícita uma violência física.

Na opinião de Mick Hume, qualquer pessoa pode tomar a decisão de não dizer uma coisa para não ser ofensivo, o que não é o mesmo que alguém a impedir de o dizer.

No mesmo registo, mas passando para o tema do humor, Ricardo Araújo Pereira defendeu que há muitos temas sobre os quais não gozaria, mas por sua decisão, uma vez que se todos determinassem quais os assuntos sobre os quais se pode fazer humor, não restaria nenhum.

Ricardo Araújo Pereira considerou também que este tipo de limites que se impõem, pressupõem uma falta de confiança “na capacidade de discernimento das pessoas”.

“Recuso-me a tratar o publico como um conjunto de vegetais que está em casa à espera de ser incitado”.

Virando a questão ao contrário e questionando o direito das pessoas a não serem ofendidas, Mick Hume afirmou que esse direito não existe.

“Há o direito de ser ofendido e de dizer a essa pessoa que a está a ofender, mas não de dizer que não pode ser ofensivo”, disse, acrescentando que “o que há é o direito à liberdade de expressão, de ouvir tudo e de ter a liberdade de pensar naquilo em que se acredita ser verdade”.

Nesta mesma linha, Ricardo Araújo Pereira defendeu que o facto de poder ouvir todas as opiniões, mesmo as ofensivas e absurdas, dá o poder de decidir o que pensar e o que fazer em relação a essa pessoa.

Como exemplo, referiu que se um médico exprime publicamente opiniões ofensivas ou discriminatórias em relação a determinado assunto, permite-lhe decidir não ser atendido por esse médico, uma decisão que não poderia tomar se não soubesse o que ele pensa.

Este tema está também ligado ao politicamente correto, que foi amplamente debatido, no sentido de perceber exatamente o que significa a expressão, já que começou como uma espécie de sinónimo de boa educação e passou a ser uma forma de reprimir ou limitar aquilo que se pode dizer.

As várias expressões que têm vindo a ser adotadas para fazer referencia a uma pessoa com deficiência ou a um negro, foram dois exemplos referidos.

“Não é boa educação corrigir os outros, e o politicamente correto corrige. São ambos estratégia de controle. A boa educação serve para controlar e o politicamente correto também. Outra coisa é que a obsessão pelo politicamente correto está já a pôr em causa livros, quadros e espetáculos e a boa educação nunca fez isso”, afirmou Ricardo Araújo Pereira.

Mick Hume, que se assume como um homem de esquerda, afirmou que é da esquerda que vem o politicamente correto, tendo começado por ser uma forma de garantir direitos de algumas minorias, mas que agora se começa a tornar uma forma de exclusão, mais do que inclusão: os grupos que inicialmente se pretendia defender, estão cada vez mais à parte.

Hume afirmou que “num Estado livre, qualquer homem pensa o que gosta e diz o que pensa”.

C/ LUSA

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