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Venezuela: Médico luso-venezuelano afirma que crise na saúde é mais grave do que se pensa
Sociedade 10 abr, 2019, 11:47

Venezuela: Médico luso-venezuelano afirma que crise na saúde é mais grave do que se pensa

O Governo português não tem registo de mortes de cidadãos nacionais em consequência da falência do sistema de saúde na Venezuela, mas admite que possam ter ocorrido

Um médico luso-venezuelano alertou que a crise da saúde na Venezuela é mais grave do que se pensa e os profissionais sentem-se de "mãos atadas" para prestar cuidados aos doentes.

"A crise da saúde no país é mais grave do que as pessoas pensam. Perdemos até a medicina preventiva, que é, na hora da verdade, o que mais vale", disse à Lusa José Gomes Pereira, um dos médicos que atende a comunidade portuguesa local.

José Gomes Pereira falava à margem da assinatura, por videoconferência, de uma carta-compromisso, entre o Governo de Portugal, o Centro Português de Caracas, a Associação Civil Amigos de Nossa Senhora de Fátima, da localidade de Los Teques, a sul de Caracas, e a Casa Portuguesa do estado de Arágua, para a prestação de cuidados de saúde à comunidade portuguesa local.

O neurocirurgião afirmou que na Venezuela há casos graves de desnutrição e não há "medicamentos para crianças, tratamentos imunológicos". As consequências vão ser visíveis "dentro de alguns meses e nos próximos anos", sublinhou.

"Temos um atraso, do ponto de vista da saúde, de 40 anos. Aqui fazíamos operações de toda a índole, hoje não temos como fazer as operações mais simples. Estamos de ‘mãos atadas’ a ver como as pessoas morrem e isso é doloroso", frisou.

Orgulhoso de poder fazer "algo pela sua gente", José Gomes Pereira insistiu que a assinatura do protocolo e o apoio de Lisboa é "muito importante" porque vai permitir ajudar muitos portugueses.

O médico advertiu que, na região de Los Teques, há portugueses que, além de medicamentos, "precisam de ajuda para fazer exames médicos", dando como exemplo as dificuldades para fazer uma ressonância com contraste por não se conseguirem os químicos necessários no país e por ter um custo muito elevado.

José Gomes Pereira explicou que, ao abrigo do compromisso agora assinado, começou a atender portugueses há um mês no Centro Médico Docente El Paso, em Los Teques, num processo que passa por fazer diagnósticos, verificar medicamentos requeridos e elaborar relatórios que são entregues no consulado.

"O processo demora entre mês e mês e meio e os medicamentos chegam todos individualizados, com o nome e contatos do paciente", frisou.

Já identificou várias doenças cardiovasculares, neurológicas, casos de demência senil e de Alzheimer, mas também do quadro endocrinológico e problemas oncológicos.

Por outro lado, o cônsul honorário de Portugal em Los Teques, Pedro Gonçalves, que assinou a carta-compromisso pela Associação Civil Amigos de Nossa Senhora de Fátima, destacou que desde o início do projeto "a comunidade portuguesa está muito agradecida".

"Temos quase 30 mil portugueses, que trabalham na agricultura e floricultura, muitos deles com necessidade de medicamentos e que vão agora beneficiar desta ajuda", frisou.

Segundo Pedro Gonçalves, "há muitos jovens" luso-descendentes que já "abandonaram o país" e também portugueses de "55, 60 e mais de 70 anos, que têm muitas necessidades" de atenção em matéria de saúde para doenças do "coração, glicemia e outras".

"O mais grave é que não há medicamentos. As pessoas vão às farmácias e não conseguem os medicamentos", disse.

Segundo o cônsul honorário em Los Teques, "a inflação que na Venezuela é de 2 milhões por cento" está também a impossibilitar os portugueses de conseguir medicamentos e fazer tratamentos.

"Com a inflação, os medicamentos ficam duas a três vezes mais caros do que no estrangeiro e os salários não dão nem para comprar um comprimido diário para o coração. Antes as preocupações eram a insegurança, agora os alimentos e também os medicamentos", disse.

Em Lisboa, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, que assistiu à cerimónia de assinatura da carta-compromisso, declarou que o Governo português não tem registo de mortes de cidadãos nacionais em consequência da falência do sistema de saúde na Venezuela, mas admitiu que possam ter ocorrido.

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