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Imagem de Seca no Corno de África ameaça 20 milhões de vidas
Sociedade 12 abr, 2022, 17:19

Seca no Corno de África ameaça 20 milhões de vidas

Vinte milhões de vidas estão ameaçadas pela seca no Corno de África, alertou hoje o diretor da Unicef para a África Oriental e Austral, que classificou a situação como “uma das maiores crises humanitárias que a humanidade enfrenta”.

“Claramente está a revelar-se uma das maiores crises humanitárias que a humanidade enfrenta enquanto falamos”, disse Mohamed M. Fall, em declarações à Lusa por telefone desde Adis Abeba, na Etiópia, onde se encontra para avaliar a crise humanitária na região do Corno de África.

Acabado de chegar de Gode, na região somali, o responsável da agência das Nações Unidas para a infância disse ter testemunhado uma situação “extremamente difícil”, com “grande número de pessoas deslocadas internamente”.

Só na Etiópia, disse Fall, a Unicef contabiliza nove milhões de pessoas a precisar de ajuda humanitária devido à seca, 1,7 milhões de crianças deslocadas e mais de 500 mil menores cuja educação foi interrompida por terem de abandonar os seus lares devido à falta de alimentos.

Estes dados não incluem os deslocados da guerra na região etíope do Tigray.

Ainda no Corno de África, uma região afetada pela seca há mais de quatro décadas, mas onde os últimos três anos registaram as piores condições de sempre, a Unicef contabiliza 7,5 milhões de pessoas afetadas pela seca na Somália e mais de quatro milhões no Quénia.

“Estamos a falar de um total de 20 milhões de pessoas cujas vidas estão ameaçadas por insegurança alimentar severa e também por falta de água”, disse Mohamed Fall, que afirmou querer chamar a atenção da comunidade internacional para que esta crise seja considerada uma prioridade, por ter “um enorme custo para os seres humanos, e particularmente para as crianças”.

Além da falta de água e de alimentos, a seca está a provocar surtos de doenças, alertou o responsável, contabilizando milhares de casos de sarampo nas regiões de fronteira – mais de 5.000 casos na Somália, 1.400 na Etiópia – um surto de febre amarela e a ameaça da cólera devido à falta de água e à qualidade da água disponível.

Na sua visita à região somali, uma das quatro mais afetadas pela seca juntamente com Afar, Oromia e SNNP, o diretor regional da Unicef disse ter testemunhado o trabalho que a organização está a fazer no terreno, nomeadamente uma escola temporária construída para apoiar as crianças deslocadas e um centro de tratamento da malnutrição onde as crianças chegam a lutar pela vida e rapidamente recuperam.

“Vi crianças que chegaram na semana passada quase a morrer e cujo tratamento lhes permitiu estar agora novamente de pé”, contou.

Apesar da situação, o responsável acredita que ainda é possível reverter a crise, mas sublinha que são precisos mais fundos, mais parcerias no terreno e mais mobilização das comunidades.

Esta mobilização, disse, foi outra surpresa positiva que encontrou no terreno: “Vi comunidades com recursos muito limitados a acolherem pessoas deslocadas e a partilharem o pouco que têm, o que mostra o lado mais bonito da humanidade”, relatou.

Sublinhando que a Unicef não tem os recursos necessários para fazer face ao problema, Fall mostrou-se confiante na generosidade da comunidade internacional, sublinhando que no final de abril haverá uma iniciativa de angariação de fundos e que a organização tem recorrido a doadores não tradicionais que se têm manifestado abertos a contribuir, nomeadamente países do Golfo Pérsico e países emergentes.

Mas, para o responsável, a crise em curso no Corno de África é mais do que uma crise alimentar, porque exacerba outros problemas, como a exploração e o abuso de crianças, que são separadas das famílias durante os processos de deslocação ou, mesmo quando isso não acontece, correm risco de ser sujeitas a casamentos infantis.

“Contaram-me num centro de deslocados internos que algumas pessoas precisaram de casar as filhas porque o dote era uma fonte de rendimento para uma família que tinha falta de tudo ou, às vezes, davam as filhas a famílias mais ricas só para que elas pudessem ter o que comer”, relatou.

“Vi mulheres que foram sujeitas a todo o tipo de abuso e exploração só por um balde de água”, contou ainda.

Para Fall, esta crise não se resolve apenas com alimentos e água. “É uma abordagem integrada. (…) Quero dizê-lo para que as pessoas não pensem que é só uma questão de alimentar as pessoas ou de lhes dar água. É uma questão de lhes dar dignidade e a dignidade é fundamental para qualquer ser humano”.

Lusa

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