A última ronda das conversações terminou na quarta-feira em Genebra com progressos, segundo Kiev, e sem comentários alongados de Moscovo, e um acordo para prosseguir o diálogo, promovido pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, desde que regressou há pouco mais de um ano à Casa Branca.
No entanto, a Rússia continua a não abdicar das regiões que reivindica na Ucrânia, que insiste em não ceder na integridade territorial, já anteriormente agredida por Moscovo desde 2014 com a anexação da península da Crimeia e pelo apoio aos levantamentos separatistas nas províncias de Lugansk e Donetsk, que compõem o Donbass.
Ao fim de 1.460 dias desde o começo da invasão, as forças russas ocupam a quase totalidade de Lugansk e quase 80% de Donetsk, mas falharam no último verão uma vasta operação para capturar esta província por completo, incluindo a cidade estratégica de Pokrovsk.
As tropas de Moscovo ocupam também parcialmente as províncias de Kherson e Zaporijia, no sul do país, onde mantêm o controlo desde março de 2022 da maior central da Europa, cujo destino se tornou noutro ponto quente das negociações de paz.
O exército russo possui ainda bolsas militares no norte da Ucrânia, em Sumy e Kharkiv, onde procuraram recuperar Kupyansk, outra cidade estratégica que já experimentou os dois lados do conflito, mas cuja recaptura por Moscovo, anunciada em novembro como uma grande vitória militar e um sinal de fraqueza de Kiev, não se confirmou.
A Rússia realizou o maior avanço na Ucrânia no ano passado, embora abaixo das conquistas alcançadas em 2022 e equivalente a apenas 1% do território, o que significa que menos de um quinto do país se encontra sob ocupação russa, incluindo a Crimeia e as outras áreas sob seu domínio desde 2014.
Em sentido contrário, o exército ucraniano progrediu em 2025 125 quilómetros quadrados em Kharkiv e 55 quilómetros em Dnipropetrovsk (centro-leste), duas regiões em que o plano de paz proposto por Washington prevê a retirada russa.
Já na semana passada, somaram-se outros 200 em Zaporijia, na maior porção de território recuperado por Kiev desde a contraofensiva fracassada de 2023, usando a vantagem da interrupção do serviço de Internet por satélite Starlink aos militares de Moscovo.
A Ucrânia continua no entanto a sofrer diariamente ataques aéreos em grande escala, em particular contra as infraestruturas energéticas, levando a apagões prolongados em pleno inverno e à acusação de Kiev e aliados sobre o uso do frio como arma de guerra contra civis.
O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, tem questionado repetidamente a disponibilidade do homólogo russo, Vladimir Putin, para aceitar um cessar-fogo e, como sinal das “negociações difíceis” e de uma estratégia de arrastamento do Kremlin, observou, no rescaldo da última reunião na cidade suíça, que o grupo de trabalho que discute o modelo militar de uma eventual trégua registou mais progressos do que o grupo responsável pelo enquadramento político.
Ao mesmo tempo, tenta evitar hostilizar os Estados Unidos e a pressa negocial, após Trump ter avisado que deseja fechar um acordo até junho, antes das eleições intercalares norte-americanas de novembro, e que o homólogo ucraniano tem de “se mexer” sob risco de perder “uma grande oportunidade”.
Em resposta, Zelensky vai deixando o alerta de que a normalização das relações entre Washington e Moscovo não pode ser alcançada à custa do sacrifício da Ucrânia, aludindo a uma reunião bilateral, à margem das conversações de Genebra, entre enviados norte-americanos e russos, na qual o representante do Kremlin Kirill Dmitriev abordou a perspetiva de negócios no valor de 14 biliões de dólares.
Como antecedente do relançamento do processo de paz, Trump recebeu Putin, em agosto, no Alasca, com seguimento numa intensa jornada diplomática promovida pelo enviado norte-americano Steve Witkoff e pelo genro de Trump, Jared Kushner, até se chegar ao atual formato das negociações trilaterais.
O diálogo direto entre russos e ucranianos não acontecia desde os primeiros dias de guerra, ainda que os dois lados nunca tenham deixado de comunicar entre si, o que permitiu a libertação de milhares de prisioneiros de guerra e devolução de corpos de soldados, mas resultados lentos na recuperação das crianças e adolescentes deportados dos territórios ocupados para a Rússia.
Embora a maior parte do conteúdo da cimeira no Alasca tenha ficado por conhecer, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguei Lavrov, referiu já um suposto passo atrás em relação a uma proposta que Moscovo estaria pronta a concordar.
O plano original de 28 pontos da Casa Branca previa a entrega do Donbass em troca de garantias de segurança ocidentais para prevenir uma nova agressão russa, mas foi entretanto revisto e reduzido por Kiev, em conjunto com os principais aliados europeus, que se insurgiram contra uma proposta que interpretaram como uma capitulação de Kiev, ao contemplar a maior parte das exigências russas.
Apesar de presentes em Genebra, mas ausentes na mesa central de negociações, os países europeus da NATO têm procurado compensar a saída de palco dos EUA no apoio político, financeiro e militar a Kiev, estando também excluídos à partida pelo Kremlin de integrar uma eventual estrutura que assegure as garantias de segurança, que deverá ser supervisionada por Washington.
Ao fim de quatro anos de um conflito que já provocou centenas de milhares de baixas nos dois países, a Rússia volta frequentemente ao argumento das “causas profundas” que usa para justificar a invasão militar, referindo-se ao alargamento da NATO para perto das suas fronteiras e um alegado sentimento russófobo na Ucrânia, um país que em 2022 urgia “desnazificar”, isto é mudar de regime.
Zelensky continua a ser pressionado por Washington, mas contra a opinião dos parceiros europeus, a realizar eleições, que deviam ter ocorrido em 2024 mas que ficaram adiadas sem data por imposição da lei marcial em vigor, levando a que Putin o considere um líder ilegítimo.
Em resposta, o Presidente ucraniano condiciona a marcação de eleições ao cessar-fogo que o Kremlin tem até ao momento recusado e apenas “quando todas as garantias de segurança necessárias estiverem em vigor”.
Em causa, pode estar ainda um referendo, se os negociadores de Kiev acabarem por aceitar um acordo que envolva questões territoriais e alterações à Constituição, mas as sondagens indicam que essa não é uma opção para a maioria dos ucranianos.
Lusa