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“Não é fácil fazer a mesma casa duas vezes”, diz madeirense um ano após incêndios no Funchal
Sociedade 13 ago, 2017, 16:52

“Não é fácil fazer a mesma casa duas vezes”, diz madeirense um ano após incêndios no Funchal

António Pimenta, carpinteiro, 64 anos, percorre a sua casa, que foi totalmente destruída pelos incêndios que assolaram a Madeira há um ano e revela uma grande alegria por a ver recuperada e pronta a habitar.

"Não é fácil fazer a mesma casa duas vezes. Mas a gente, às vezes, tem de ir buscar forças a qualquer sítio para ultrapassar as dificuldades", disse à agência Lusa.

E vincou: "Eu fui até ao fundo da escada, mas já consegui subir os degraus quase todos até lá acima".

A residência de António Pimenta fica no sítio da Terça, na freguesia de São Roque, a pouca distância do local onde teve início o incêndio, no dia 08 de agosto de 2016, numa zona de interface entre a floresta e a área urbana, no concelho do Funchal.

O fogo assumiu proporções gigantescas, motivado pelas altas temperaturas (37 graus), vento forte e baixa humidade do ar, e atingiu vários pontos do concelho, incluindo, no dia 09 de agosto, o núcleo histórico de São Pedro, no centro da capital madeirense.

As autoridades identificaram 251 famílias afetadas pelos incêndios, tendo as casas sido total ou parcialmente destruídas. Destas, 122 foram realojadas provisoriamente e 180 receberam apoio para a reconstrução, num valor superior a um milhão de euros, através do Fundo de Socorro Social do Governo da Madeira, e também de apoios cedidos por instituições como a ASA – Associação de Desenvolvimento de Santo António e a Cruz Vermelha Portuguesa.

Entretanto, o homem acusado de atear o fogo que esteve na origem dos incêndios, onde morreram três pessoas, foi julgado e condenado a uma pena de 14 anos de prisão.

"É preciso coragem para dar a volta a esta situação", desabafou António Pimenta, lembrando o período em que a família, constituída por cinco elementos, teve de ir viver com familiares e amigos, sempre com a imagem do fogo bem presente na memória.

"Eu estava armado em herói, pensei que ia apagar o lume. Mas não era fácil. O vento levava o lume para todos os sítios e não havia nada a fazer", disse, realçando que "dentro de casa só ficou as molhas das camas".

Situação idêntica foi vivida por Graça Livramento, reformada, 53 anos, que ficou sem a moradia onde residia com o filho, também no sítio da Terça.

"Cheguei a casa às sete e tal da tarde, isto no dia 08 de agosto, e já estava tudo a arder ali por cima", contou, vincando que nunca esquece os momentos aflitivos que passou até ser forçada a abandonar o local, na madrugada do dia 09, porque "as labaredas já andavam a toda a volta".

Depois, Graça Livramento viveu três meses em casa de um familiar e outros sete num apartamento da empresa pública Investimentos Habitacionais da Madeira, período durante o qual se procedeu à recuperação da moradia, à qual regressou há cerca de um mês.

"Nunca, nunca ia ter esta casa, este conforto. Mas, ao mesmo tempo, olho para ela e lembro-me que a tenho por uma desgraça, uma grande desgraça que ficará na minha memória e na de qualquer pessoa", confessou, explicando que "tudo" o que tem dentro de casa é de instituições.

Dados oficiais indicam que até junho de 2017 foram arrecadados 1,3 milhões de euros em donativos referentes aos incêndios do ano passado, dos quais 63 mil euros em espécie.

As autoridades regionais referem, por outro lado, que 40 famílias ainda aguardam apoios para a reedificação das suas moradias, totalmente destruídas, e realçam que até ao momento não beneficiaram de qualquer apoio financeiro por parte do Estado português.

Entretanto, António Pimenta espera regressar à nova casa, que reergueu com a ajuda de "muitas instituições" e de um "monte de amigos", dentro de um mês, mas sempre vai lembrando que a obra só estará totalmente concluída quando receber a visita do presidente da República, isto porque Marcelo Rebelo de Sousa esteve lá logo após os incêndios e prometeu voltar para a inauguração.

LUSA

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