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Ignorar pobreza infantil tem impactos a longo prazo
Foto: Unsplash
Sociedade 20 mai, 2026, 12:16

Ignorar pobreza infantil tem impactos a longo prazo

A economista Susana Peralta, coautora do relatório “Portugal Balanço Social 2025”, defende que o país deveria dar mais atenção à pobreza infantil, alertando para os impactos de longo prazo em comportamentos de risco, doenças crónicas e aprendizagens.

Segundo o relatório “Portugal Balanço Social 2025”, que tem por base dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), a taxa de risco de pobreza infantil baixou de 22,8% em 2008 para 17,8% em 2024, registando-se uma “tendência global de redução da pobreza infantil, embora persistam desafios específicos na primeira infância, que poderá exigir intervenções direcionadas”.

Por outro lado, no mesmo ano, 14,9% das crianças pobres estavam em situação de privação material e social severa, um valor “quase seis vezes” superior aos 2,6% de crianças não pobres afetadas.

A taxa de privação material e social afetava quase 30% das crianças pobres, uma percentagem “quase quatro vezes maior do que nas crianças não pobres (7,6%)”.

Susana Peralta destacou algumas dimensões da privação material e social infantil, como por exemplo o facto de 22,6% das crianças pobres não poderem convidar amigos de vez em quando para brincarem e comerem juntos ou 22,7% que não conseguem participar em viagens ou atividades escolares que não sejam gratuitas.

“Isto quer dizer que metade das crianças pobres não participa numa atividade extracurricular ou de lazer de forma regular”, apontou.

Salientou que isso demonstra “a quantidade de coisas que há para fazer junto das famílias pobres com crianças”.

“É um mundo de políticas públicas e nós sabemos o que estas privações nas crianças fazem. Fazem adultos que vão crescer com maior prevalência de doenças crónicas ou com mais dificuldade em ter sucesso no mercado de trabalho”, alertou.

Segundo Susana Peralta, as consequências da pobreza infantil são “uma das coisas mais bem documentadas da ciência económica”.

A pobreza infantil “tem impactos de longo prazo nas competências cognitivas” e está relacionada com comportamentos de risco ou prevalência de doenças crónicas.

“Devíamos estar a ter muito mais atenção com o problema da pobreza infantil”, defendeu, acrescentando que “só se resolve com transferências sociais, dando dinheiro às famílias”.

A economista e investigadora explicou que “o rendimento dos pais por si só não chega, do ponto de vista das políticas públicas, para resolver o problema da pobreza nas crianças”.

“É perfeitamente imaginável e possível que uma família que não é pobre, quando nasce uma criança, passe a ser pobre, porque depois tem mais uma pessoa para alimentar e o rendimento não aumentou, porque as crianças não trazem rendimento, só trazem despesa”, exemplificou.

Defendeu, por isso, que nunca será possível resolver este problema, “mesmo no país mais rico do mundo”, sem dar dinheiro às famílias que têm crianças.

Relativamente aos dados globais do relatório, Susana Peralta destacou que “o país tem feito progressos notáveis nos últimos 20 anos”, apesar de “15,4% de pobres ainda ser muita gente a viver na pobreza” e de continuarem a persistir “nichos de pobreza que são preocupantes”.

Destacou que o poder de compra das famílias aumentou em média 25% nos últimos 10 anos, com “uma distribuição bastante inclusiva”, mas defendeu “que a maior parte disto deve ser explicado pelo bom desempenho da economia”.

Apesar da evolução positiva, persistem desigualdades, nomeadamente os “25% mais ricos [que] vivem com quase cinco vezes mais rendimento do que os 10% mais pobres”.

Segundo a investigadora, “um dos grandes problemas da pobreza é a sua transmissão”, justificando, por isso, uma “análise cuidadosa da privação infantil”, já que “uma em cada seis crianças com menos de cinco anos vive na pobreza”.

Susana Peralta disse ainda que 1.500 mil pessoas a viver abaixo da linha de pobreza são muitas, com persistentes carências habitacionais, de acesso a cuidados de saúde ou sem bem-estar emocional, o que demonstra que ainda “há imensas falhas” e “muito espaço para políticas públicas intervirem para melhorar a sua qualidade de vida”.

Lusa

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