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Dispositivos eletrónicos no quarto prejudicam saúde das crianças
Sociedade 08 jun, 2021, 12:18

Dispositivos eletrónicos no quarto prejudicam saúde das crianças

A presença de dispositivos eletrónicos no quarto das crianças predomina nas famílias desfavorecidas e prejudica o sono e a saúde dos utilizadores, segundo um estudo hoje divulgado pela Universidade de Coimbra (UC).

Embora a televisão, o computador, o ‘tablet’ e outros dispositivos “sejam mais prevalentes nas casas de famílias portuguesas com maior estatuto socioeconómico, a disponibilidade desses equipamentos no quarto da criança é mais comum em famílias mais desfavorecidas, com impactos negativos no sono”, alertam investigadores da UC.

“Este paradoxo pode refletir fatores sociais e ambientais, ao invés de financeiros”, refere a instituição, em comunicado enviado à agência Lusa.

O estudo foi realizado por uma equipa do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), e as suas conclusões publicadas na revista científica europeia “Sleep Medicine”.

“Uma explicação avançada no artigo científico é a possibilidade de as famílias de baixo estatuto socioeconómico terem menos conhecimento sobre os problemas de saúde associados ao uso excessivo de dispositivos com ecrã, menos tempo para supervisionar seus filhos ou menos oportunidades de envolvê-los em atividades extracurriculares”, segundo a nota.

O trabalho teve por objetivo “identificar a disponibilidade de diferentes dispositivos eletrónicos (…) em casa e no quarto das crianças portuguesas de acordo com a condição socioeconómica, de modo a analisar as associações entre essa disponibilidade e o tempo de ecrã e o sono das crianças" ao longo da semana e no fim de semana.

A investigação, na qual foram analisados dados de 8.430 crianças, com idades dos três aos 10 anos, de escolas públicas e privadas das cidades do Porto, Coimbra e Lisboa, permitiu concluir que “os dispositivos eletrónicos disponíveis em casa, especialmente no quarto, diminuíram significativamente o tempo de sono das crianças”.

“Independentemente da idade, do sexo ou do tipo de equipamento, o tempo despendido em frente ao ecrã é sempre mais elevado em crianças de famílias de menor posição socioeconómica”, afirma Daniela Rodrigues, primeira autora do artigo científico, citada na nota.

Entre crianças dos três aos cinco anos, “ter uma televisão e um ‘tablet’ no quarto foi associado a maior tempo de ecrã”, enquanto entre crianças dos seis aos 10 anos ter dispositivos no quarto (…) foi associado a maior tempo de ecrã e a menos horas de sono principalmente nos dias de aula”.

Para Daniela Rodrigues, o estudo mostra que “ter um equipamento no quarto da criança não está relacionado com uma maior disponibilidade do equipamento em casa, nem com maior disponibilidade financeira”, sendo necessário “desenvolver estratégias eficazes para minimizar o acesso ao dispositivo na hora de dormir”.

“O tempo excessivo em frente ao ecrã e a menor duração do sono têm importantes implicações na saúde das crianças”, sublinha.

Além disso, de acordo com a investigadora do CIAS, “o uso generalizado de dispositivos móveis e a popularização de dispositivos eletrónicos no quarto são provavelmente responsáveis pelo aumento substancial do tempo de ecrã” na infância.

“Com a pandemia da covid-19, as crianças foram obrigadas a passar mais tempo em casa e ficaram mais dependentes de equipamentos eletrónicos (…), pelo que é urgente aplicar estratégias de gestão do uso destes equipamentos na hora de deitar. Especial atenção deve ser dada a crianças socioeconomicamente mais desfavorecidas por estarem em maior risco”, defende.

O estudo evidencia também que, “apesar de a televisão ainda exercer efeitos consideráveis sobre o tempo de sono das crianças, os dispositivos móveis podem começar a ter um impacto maior no sono do que os dispositivos tradicionais”.

A investigação foi financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e teve igualmente apoio de fundos europeus, através do programa Compete e do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER).

C/Lusa 

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