Enquanto na Assembleia da República, em Lisboa, se assinalavam os 50 anos da Constituição da República Portuguesa, em Vila Real juntavam-se à porta do cemitério de Santa Iria várias pessoas para lembrar Maximino Barbosa de Sousa e Maria de Lurdes Correia.
Lá dentro ergueram uma faixa onde se podia ler “Lembrar Max e Lurdes é defender a Constituição”.
José Castro, da associação política UDP, disse à agência Lusa que o objetivo foi prestar homenagem e lembrar o exemplo cívico e de intervenção do padre Max e também de Maria de Lourdes “num Portugal de há 50 anos, em que havia um grande fervilhar de movimentação e de participação das pessoas na construção de uma nova sociedade”.
“Há um chamamento à atualidade com esta nossa evocação”, referiu ainda José Castro, advogado, ex-preso político e elemento do movimento “Não Apaguem a Memória”.
Também lá dentro se cruzaram com o irmão do padre Max, Duarte de Sousa, 71 anos.
Tinha 21 anos quando o irmão, mais velho, foi assassinado. Esteve também em Vila Real a dar aulas de francês, ia casar em 1976 e, no fim do ano letivo de 1975, foi para a capital “fazer a vida”.
“Estas pessoas que vêm aqui é porque têm um reconhecimento enorme e eu tenho que lhes estar grato. Agradeço imenso a coragem que eles têm, a resiliência que têm para continuar a manter esta luta viva e a história dele porque, ao fim ao cabo ele morreu, mas morreu por qualquer coisa e essa qualquer coisa está aqui, todos os anos, com estas presenças”, afirmou à Lusa.
Duarte de Sousa veio hoje a Vila Real recordar o irmão, uma pessoa que, descreveu, “tinha apenas o dom da palavra” e “era integra, gostava do amigo, fazia tudo pelos pobres”.
A 02 de abril de 1976, Maximino Barbosa de Sousa, com 33 anos, e Maria de Lurdes Correia, 19 anos, foram assassinados num atentado à bomba pelo grupo de extrema-direita direita Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP) pelo qual os autores nunca foram condenados. Houve vários processos judiciais e nenhuma condenação.
Os dois seguiam de carro para a Cumieira, em Santa Marta de Penaguião, quando o carro explodiu.
O padre Max era candidato independente da UDP, nas listas das legislativas pelo círculo de Vila Real, enquanto Maria de Lurdes fazia parte da União de Estudantes pela Democracia Popular e era ativa na alfabetização dos trabalhadores da agricultura.
“Ele, aqui em terras de Trás-os-Montes, tinha também uma mensagem de igualdade, de progresso, de elevação e desenvolvimento social, através da educação. Ele teve uma grande atividade em aulas de alfabetização”, referiu José Castro, lembrando que há 50 anos havia no país uma “altíssima taxa de analfabetismo”.
Um projeto que, na sua opinião, não caia bem “às forças do passado”.
“E não deixa de ser também simbólico o facto de o atentado ter ocorrido na manhã do dia 2 de abril, justamente a madrugada, onde na Assembleia então constituinte foi aprovada a Constituição”, referiu.
Décadas depois, Portugal e outros países estão confrontados “com uma nova onda de posições políticas em que as forças da extrema-direita pregam o ódio e a violência”.
“Tem todo o sentido, a nosso ver, chamar também à memória este exemplo de dedicação à luta dos trabalhadores e do povo pelo seu progresso social”, referiu.
Belmira Claro, presidente da Associação Padre Maximino, fez questão de estar hoje em Vila Real e realçou a importância de lembrar e homenagear o sacerdote e o seu legado
Joaquim Gaspar foi aluno do padre Max durante dois anos, no magistério primário, e são muitas as recordações do homem com quem contactou em jovem e cuja morte deixou toda uma comunidade em choque.
“Convivi muito com ele”, realçou.
Durante o dia estão várias romagens marcadas para o cemitério de Santa Iria e, esta noite, decorre uma sessão evocativa.
Houve três processos, sendo que no último, a 21 de janeiro de 1999, o Tribunal de Vila Real reconheceu que o MDLP era responsável pelo crime, porém absolveu os arguidos por falta de provas definitivas.
Lusa