“O Ártico não é um sítio selvagem, já é governado pelas nações árticas”, afirmou a representante da embaixada da Noruega, Karina Asbjørnsen, durante a conferência “O Derreter da Última Fronteira Estratégica do Mundo”, que decorre hoje em Lisboa.
Um apelo que foi secundado pelos representantes dos outros três Estados árticos presentes, referindo que grandes potências mundiais como a China, a Rússia e os Estados Unidos mostram cada vez mais vontade de usufruir dos recursos naturais e económicos que a região oferece.
“O Ártico já não é uma região desconectada do mundo, há um crescente interesse e cada vez mais países querem marcar presença”, afirmou o embaixador dinamarquês, Lars Nielsen.
A Dinamarca – que governa a Gronelândia – foi alvo, no início deste ano, de uma tentativa de anexação daquela ilha por parte dos Estados Unidos, quando o Presidente norte-americano, Donald Trump, considerou que a região era uma “absoluta necessidade” para a defesa global e admitiu querer acesso aos seus recursos naturais críticos, nomeadamente aos minerais raros.
No entanto, segundo o embaixador, é a Rússia que constitui a maior preocupação da Dinamarca, sobretudo porque tem aumentado a sua capacidade militar desde o início da guerra com a Ucrânia, em 2022.
“Continuamos a achar que o risco de um conflito direto no Ártico é pequeno, mas aumentou desde o ataque em grande escala à Ucrânia”, afirmou Lars Nielsen.
“A Rússia continua a ser uma ameaça para o frágil contexto do Ártico”, reiterou, acrescentando que também a China, “que é um colaborador próximo da Rússia, quer explorar os recursos” daquela zona.
Por isso, e apesar de a entrada da Suécia e da Finlândia na NATO, terem aumentado a segurança e estabilidade da região, a Dinamarca considera que o mais importante é investir na defesa do país.
“Temo-lo feito ao longo dos séculos com o nosso exército e temos capacidade de defender todo o nosso território”, disse, adiantando que a Dinamarca continua a investir para melhorar essa capacidade.
A embaixadora da Suécia, Elisabeth Eklund, defendeu que face ao aumento do interesse, o Ártico “deve tornar-se um parceiro estratégico da União Europeia”, lembrando que a política para a região “não pode ser abstrata, porque afeta, de forma real, muitas pessoas”.
O Ártico abriga cerca de 30% do gás natural e petróleo não descobertos do mundo e é rica em minerais estratégicos como ouro, ferro, estanho, níquel e cobre.
A região alberga oito países, que formam o Conselho do Ártico, um fórum de cooperação em questões de ambiente, desenvolvimento ou investigação científica. Além dos quatro hoje presentes na conferência contam-se também os Estados Unidos, a Rússia, a Finlândia e a Islândia.
Apesar de a ausência dos Estados Unidos na conferência ter sido notada, os representantes das quatro nações do Ártico garantiram que continuam a cooperar com a administração norte-americana na defesa e segurança da região, sublinhando a necessidade de haver “mais diálogo” com aquele país e assegurando que Washington é “um aliado-chave”.
Situado no extremo norte do planeta, o Ártico é a região da Terra que está a aquecer mais depressa.
O degelo da zona não só contribui para a subida do nível do mar e mudança de clima, provocando ondas de calor ou tempestades em latitudes habitualmente mais temperadas, como a Europa, como causa vários outros fenómenos que aumentam o interesse na região.
Entre estas consequências conta-se a criação de novas rotas marítimas, já que o degelo permite a existência de caminhos mais curtos entre a Ásia, Europa e América, mas também um investimento no turismo, nas pescas, na extração de minerais e na realização de missões científicas.
Lusa