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“Inaceitável que em países como Portugal jovens gastem todo o salário em habitação”
Foto: Lusa
Sociedade 29 abr, 2026, 17:31

“Inaceitável que em países como Portugal jovens gastem todo o salário em habitação”

O presidente do Conselho Europeu considerou hoje inaceitável que, em países como Portugal, os jovens tenham de gastar “100% do salário”, durante 20 ou 30 anos, para conseguir comprar uma casa.

“Não podemos aceitar que, em alguns países da União Europeia, designadamente aquele que eu conheço melhor [Portugal], jovens adultos tenham de pagar 100% dos seus salários, durante 20, 30 anos ou mais, para conseguir comprar uma casa”, afirmou António Costa num discurso no Comité Económico e Social Europeu, em Bruxelas.

O presidente do Conselho Europeu defendeu que o preço das casas está “no centro da desilusão das pessoas com as instituições democráticas” e considerou que o acesso a habitação acessível é “vital para a coesão social e justiça”.

“Os nossos jovens são o futuro da Europa e a Europa deve dar-lhes a garantia de que terão um futuro melhor”, referiu o também ex-primeiro-ministro português.

António Costa fez estas afirmações no final de um discurso centrado na necessidade de a UE se tornar mais autónoma a nível internacional, não só para garantir a soberania a nível económico e digital, mas também para assegurar que consegue manter o modelo social europeu.

O presidente do Conselho Europeu salientou que, nos últimos anos, a UE ficou exposta a vários acontecimentos: “a continuação da guerra na Ucrânia, as tarifas dos Estados Unidos que perturbam a ordem global e comercial, a China a exibir o seu poderio económico e a guerra no Médio Oriente que trouxe um terceiro choque petrolífero”.

“Isto mostrou o preço que pagamos pelas nossas múltiplas dependências num sistema comercial internacional fragmentado, que reduz os ganhos da integração económica global. Esse preço é particularmente elevado na energia e na eletricidade”, referiu.

Neste contexto geopolítico “mais hostil e incerto”, Costa defendeu que a UE deve “tomar ações decisivas” para garantir a sua soberania, considerando que isso é “indispensável para garantir o modelo social europeu”, para criar oportunidades para os cidadãos da UE e para tornar o bloco um “lugar atrativo para viver e investir”.

O presidente do Conselho Europeu referiu que os líderes da UE, nas diferentes cimeiras que têm realizado nos últimos tempos, já definiram três rumos para aumentar essa autonomia: a competitividade, a soberania e o comércio.

Na competitividade, António Costa defendeu medidas que têm sido discutidas pelos líderes, como a harmonização de regras para empresas europeias através do chamado 28.º regime, a necessidade de se garantir o mútuo reconhecimento de qualificações na UE ou ainda reduzir burocracias, “para simplificar a vida diárias dos cidadãos e empresas”.

“Reforçar a nossa competitividade não é um objetivo em si, mas é um ingrediente indispensável para tornar o nosso modelo social mais robusto e para criar mais empregos de qualidade. É um pré-requisito para tornar a UE menos exposta à instrumentalização das suas dependências”, indicou.

No que se refere à soberania, António Costa disse que se trata de cumprir o “plano ambicioso para que a Europa tenha verdadeiras capacidades de Defesa e de segurança”, mas também de “voltar a ter controlo soberano a nível energético” e “descarbonizar a economia”.

“Trata-se também de introduzir, em setores e tecnologias estratégicas, um nível específico e proporcional de ‘preferência europeia’. Não estamos a falar de protecionismo”, disse, garantindo que, apesar dessa preferência europeia, a UE “vai respeitar plenamente os seus acordos comerciais”.

Por último, no que se refere ao comércio, António Costa recordou que, este ano, a UE já ‘fechou’ acordos comerciais com a Índia e os países do Mercosul, criando mercados de “quase três mil milhões de pessoas”, e salientou que isso “vai aumentar o peso da Europa enquanto âncora”, permitindo-lhe moldar “uma nova rede de polos regionais baseada em regras e a própria ordem internacional baseada em regras”.

 

Lusa

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