Em entrevista à agência Lusa, Marta Andrada de Aguiar, que também é dirigente na Federação Portuguesa de Natação (FPN), explica que o trabalho de grupo com a seleção que marca presença na ilha da Madeira para o Europeu foi “bastante exigente, sobretudo da parte das jogadoras”.
“Não estão todos os dias juntas, tirando nos estágios. Primeiro, [o trabalho foi para] criar coesão, num grupo heterogéneo a nível etário. Criar uma homogeneização da visão, da capacidade de tomada de decisão, e sobretudo um objetivo coletivo. Cada atleta tem um objetivo individual, mas é extremamente importante criar o objetivo coletivo no sentido de empoderamento”, explica.
Portugal, que tinha três presenças em Europeus nas 20 primeiras edições, vive por estes dias a quarta, um regresso após 10 anos de ausência, e a psicóloga desportiva e ‘mental coach’ nota o trabalho de “dinâmica de grupo” aliado “ao trabalho individual”.
“Trabalhamos os pontos fortes, porque todos nós temos talentos, e elas têm muitos. Aqui e ali, há algumas debilidades, mas trabalha-se essa vertente, para que o empoderamento e o reconhecimento dos pontos fortes lhes responda”, nota.
Num grupo “heterogéneo”, Marta Andrada destaca “pessoas com tomada de decisão muito grande, uma visão brutal e grande resiliência”, mas também com formações e vidas fora da piscina muito distintas.
A “exigência física brutal” de uma modalidade que combina natação com esforço mental e tático, com quatro períodos de oito minutos sem que possam ‘ter pé’, tornam essencial, a nível psicológico, um “equilíbrio ótimo e capacidade de inteligência emocional brutal”.
Como “base de apoio” deste trabalho especializado, que nem todas as modalidades possuem ao nível de elite, está a capitã Inês Nunes, que, aos 38 anos, é a única com experiência num Europeu, justamente na última participação, em 2016.
“Aliás, tem sido muito um trabalho em conjunto, muitas vezes até trabalho com a Inês, e ela leva esta capacidade de envolvimento, de reconhecimento das necessidades. É uma jogadora experiente, conhece as suas colegas, e acaba por fazer este trabalho junto comigo. Com os treinadores, também tem sido muito presente”, nota a psicóloga.
Esta especialista trabalha “em conjunto” quer com treinadores quer com o departamento de fisioterapia, pensando num momento de fase final internacional em que as jogadoras passam muito tempo juntas, com elevado desgaste mental, dados os resultados e a pressão associadas, e físico.
“Há um reconhecimento dos treinadores dessa necessidade. Na verdade, também tenho trabalhado esta visão do que é um Europeu, qual o intuito, e volto a falar daquela visão coletiva. Isto é importante, porque diminui um bocadinho a visão da pressão, o que é que a pressão tem e o que implica na performance e rendimento”, reflete.
O “medo da expectativa”, e o medo da derrota, do falhanço, é um dos ‘alvos’ da psicóloga desportiva, na base do “processo” e de pensar no jogo como um todo, jogada a jogada, e não só o habitual foco no resultado.
“Muitas vezes o que acontece, e é uma coisa muito portuguesa, é olharmos para o resultado e pouco para o processo. À primeira derrota… ‘não sou capaz’. O ‘não sou capaz’ não faz parte da federação, é preciso valorizar todo o crescimento. Falhar, na minha perspetiva como psicóloga, é crescer. Falhar é informação”, defende.
Lusa